sábado, dezembro 20, 2003

Papai Noel é brasileiro

O Brasil se sagrou, nesta sexta-feira, tetracampeão mundial de futebol sub-20. Algo que me fez crer que, se Deus não é brasileiro, pelo menos Papai Noel é. Pois depois de tudo que a seleção passou, o título foi um verdadeiro presente.

O Brasil começou muito mal a primeira fase, ganhando sem convencer os dois primeiros jogos. Depois, conseguiu perder para a Austrália, terminando em segundo no grupo. Nas oitavas-de-final, vitória suada contra a Eslováquia, com direito a gol de ouro. Confesso que, até esse ponto, eu não botava muita fé no time, que dava toda a impressão que iria ficar pelo meio do caminho. Mas, ao mesmo tempo, Papai Noel dava seu primeiro agradinho aos meninos do Brasil: pela primeira vez, vi o Brasil meter um golden goal. Algo inédito até então.

Nas quartas, Papai Noel resolveu abrir o saco: 5 a 1 contra o Japão. Papai Noel foi tão bonzinho que deu uma lembrancinha para os japoneses; um golzinho de honra. Seja rico ou seja pobre, o velhinho sempre vem.

Na semi-final, Papai Noel teve que cortar um dobrado, já que o jogo era contra a Argentina. No final das contas, ele deixou por apenas 1 a 0, que foi pra não dar muito na cara o lado em que ele estava.

Mas foi na final, contra a Espanha, que o dedo do bom velhinho se fez mais presente - com o perdão do trocadilho. Logo aos três minutos de jogo, ele achou que o capitão espanhol não havia sido um bom menino durante o ano e, ao invés de um presente, deu a ele apenas um cartãozinho. Vermelho, para não destoar dos uniformes da Fúria.

Assim sendo, ele abriu uma avenida para que o time brasileiro pudesse buscar seus presentes. E não é que os meninos foram relutantes em marcar os gols? Foi como se dissesem: “Ah, Papai Noel, eu não mereço... Não fui tão bonzinho neste ano..."

Demorou, mas saiu. Aos 42 minutos do segundo tempo, Fernandinho resolveu parar de brincar e estufou as redes espanholas com um brinquedinho redondo que o Papai Noel costuma dar aos montes no Natal. Daí, foi só administrar o restante da partida e correr para o abraço.

Antes de puxar o carro (ou melhor, o trenó), Papai Noel deixou ainda alguns presentes para aqueles meninos que trataram a bola com carinho durante o campeonato. Bola de bronze para o lateral-direito Daniel. Bola de prata e chuteira de bronze para Dudu Cearense. Já com a bola de ouro, Papai Noel errou de chaminé e ela foi parar com um jogador dos Emirados Árabes. Tudo bem, bom velhinho... Depois de tudo que o senhor fez por nós, a gente finge que não viu...

sexta-feira, dezembro 19, 2003

A manjada lista dos melhores

Como dezembro é época de criar listinhas sobre tudo que foi bom durante o ano, aqui vai a minha sobre os destaques do futebol brasileiro nesta ano que termina. São eles:

Goleiro - Gomes (Cruzeiro)

O jovem goleiro foi a segurança do time campeão. Com o título assegurado, passou a engolir alguns frangos. Mas já era tarde demais para algum outro goleiro arrancar o título dele.

Lateral-direito - Maurinho (Cruzeiro)

Com suas arrancadas fenomenais, Maurinho foi peça fundamental do esquema de Luxemburgo. Excelente apoiador e bom na defesa, eu achava que seu único defeito era a finalização. Até que seus golaços no segundo turno me fizeram perceber que estava enganado.

Zagueiros - Cris (Cruzeiro) e Alex (Santos)

Cris foi o jogador brasileiro que mais evoluiu este ano, passando, em alguns meses, de beque inseguro e afobado a zagueiro elegante. A passagem no futebol alemão lhe fez muito bem. Já Alex reeditou a segurança que dava à zaga santista no Brasileirão passado, mostrando muita regularidade.

Lateral-esquerdo - Léo (Santos)

A lateral-esquerda foi, nos últimos anos, a posição mais farta de craques no Brasil. Até que o dinheiro europeu viesse e levasse para fora do nosso país jogadores do quilate de Roberto Carlos e Júnior. Dos que ficaram, Léo é o melhor.

Volantes - Maldonado (Cruzeiro) e Renato (Santos)

Uma dupla de cabeças-de-área que não faz faltas às dúzias e que não coleciona cartões amarelos. Algo impensado no futebol brasileiro até bem pouco tempo atrás. Pena que nunca veremos os dois juntos com a amarelinha.

Meias - Alex (Cruzeiro) e Diego (Santos)

Com a ida de Kaká para o Milan, ficou fácil decidir quais são os dois maiores meias do futebol brasileiro. Diego comeu a bola e fez chover neste ano. Alex fez tudo isso e um pouco mais. Seleção neles!

Atacantes - Dimba (Goiás) e Luís Fabiano (São Paulo)

Sim, eu escalei dois centroavantes. Mas qual o problema? Com dois craques no meio-de-campo, ia ficar fácil. Luís Fabiano seria ainda melhor se deixasse de lado seu gosto por levar cartões vermelhos. E Dimba compensa sua falta de técnica com um enorme faro de gol. Um autêntico discípulo de Dadá Maravilha.

Tal qual a Guerra Fria, a lista ficou um tanto bipolarizada. Mas não teve jeito: Cruzeiro e Santos foram, sem dúvida, as melhores equipes do país em 2003.

Claro que a lista poderia incluir outros jogadores como Deivid e o já citado Kaká, que deixaram o país em meados deste ano, mas jogaram muito nos meses em que ainda estavam por aqui. Preferi deixa-los de lado para que a lista refletisse o ano como um todo. E que ano!

quinta-feira, dezembro 18, 2003

De mal a pior

Ontem, eu disse que a Copa Sul-Americana tinha muitos pontos em que poderia melhorar, bastaria vontade e iniciativa da Conmenbol. Parece que não só o regulamento da Copa Sul-Americana continuará a ser o mesmo non-sense deste ano como a Libertadores será um pouco mais sem-noção. Nove grupos de quatro times, donde os primeiros e os cinco melhores segundos colocados se classificam diretamente para as oitavas-de-final, além de uma repescagem com os demais segundo colocados, que classificará mais duas equipes. Entenderam? Não se preocupem. É estranho assim mesmo.

Tudo isso foi feito para beneficiar clubes mexicanos e venezuelanos, substituindo a fase preliminar que colocava frente a frente equipes destes dois países. Mas será que inchar o torneio e criar fórmulas esdrúxulas seria a melhor solução? Não seria mais inteligente tirar algumas vagas brasileiras e argentinas para acomodar os times de México e Venezuela, fazendo com que o torneio continuasse com 32 times?

Como racionalidade não é o forte do nosso futebol - nem do brasileiro, nem do sul-americano -, resta-nos consentir com uma fórmula muito estranha. Sorte nossa que os times brasileiros caíram em chaves relativamente fáceis e não devem ter muitas dificuldades em se classificarem para a segunda etapa da competição.

Abaixo, os grupos e uma pequena análise das chances das equipes brasileiras.

Grupo 1

São Caetano (Brasil)
México 2
Peñarol (Uruguai)
The Strongest (Bolívia)

Apesar de não ser um grupo dos mais fáceis, o Azulão tem todas as condições de ser o primeiro do grupo. Tudo vai depender da fase em que o Peñarol - clube muito tradicional, porém com muitos altos e baixos - estiver daqui a alguns meses. O The Strongest não deve assustar.

Grupo 2

Vélez Sarsfield (Argentina)
Once Caldas (Colômbia)
Uruguai 3
Maracaibo (Venezuela)

Grupo 3

Cruzeiro (Brasil)
México 2
Universidad Concepción (Chile)
Caracas (Venezuela)

Dos times brasileiros, o Cruzeiro é o que deve ter menos dificuldades para se classificar. O Universidad Concepción disputa pela primeira vez a competição e o Caracas é um time de pouca expressão. O único que pode complicar as coisas é o time mexicano, que ainda não foi definido. Mesmo assim é difícil.

Grupo 4

São Paulo (Brasil)
Liga Desportiva Universitária (Equador)
Cobreloa (Chile)
Alianza Lima (Peru)

Apesar de não serem equipes muito fortes, os adversários do tricolor têm sido presença constante nas últimas Libertadores. Os são-paulinos, ao contrário, voltam à competição depois de 10 anos. É bom que o time do São Paulo tenha cuidado.

Grupo 5

Independiente (Argentina)
El Nacional (Equador)
Nacional (Uruguai)
Peru 3

Grupo 6

River Plate (Argentina)
Colômbia 2
Libertad (Paraguai)
Deportivo Táchira (Venezuela)

Grupo 7

Santos (Brasil)
Barcelona (Equador)
Guarani (Paraguai)
Jorge Wilstermann (Bolívia)

Assim como acontece com o Cruzeiro, o Santos está anos-luz a frente de seus concorrentes.

Grupo 8

Boca Juniors (Argentina)
Colômbia 3
Colo Colo (Chile)
Bolívar (Bolívia)

Grupo 9

Coritiba (Brasil)
Rosário Central (Argentina)
Olímpia (Paraguai)
Sporting Cristal (Peru)

O Coxa caiu na chave mais complicada entre os times brasileiros. Missão difícil para os paranaenses, já que enfrentarão equipes de tradição. O Olímpia ganhou a Libertadores em 2001, o Sporting Cristal é a mais forte equipe peruana e o Rosário Central costuma ser um adversário muito forte.

Com este regulamento confuso, a Libertadores se inicia dia 4 de fevereiro e vai até dia 30 de junho. Mas, ainda que a competição esteja indo de mal a pior no regulamento, não podemos deixar de desejar que vença o melhor.

quarta-feira, dezembro 17, 2003

A tal Sul-Americana

Termina nesta noite a primeira Copa Sul-Americana, com a segunda partida das finais entre Cienciano, do Peru, e River Plate, da Argentina. O jogo será transmitido por... Bem, o jogo não será transmitido por nenhuma emissora brasileira. Mas, quem liga?

O primeiro jogo, disputado em Buenos Aires, terminou empatado em 3 a 3. Hoje, a partida será em Cuzco. A falta de uma equipe brasileira na final da competição minou o nosso interesse por essa final. Mas será que a tal copa merece mesmo alguma atenção?

A resposta é sim e não. Sim por parte dos clubes, que vêem nesse torneio de baixíssimo nível técnico uma chance de reforçar seus cofres. Mas a competição não deve atrair a atenção de nenhum torcedor sensato justamente pelos mesmos argumentos: o torneio é um autêntico caça-níqueis.

Prova disso foi a briga entre os clubes brasileiros para participar da competição. De início, havia ficado acertado, pelo regulamento do Brasileirão do ano passado, que os melhores colocados dentre aqueles que não conseguissem classificação para a Libertadores disputariam a Copa Sul-Americana, mais ou menos como é a Copa da Uefa, na Europa. Porém, até os que se classificaram para a Libertadores quiseram garantir seu dinheirinho.

Resultado: muita briga, choro, e uma solução Frankstein. Um ranking inventado às pressas e com critérios obscuríssimos deu a 12 clubes brasileiros a chance de disputar uma fase preliminar, divididos em quatro grupos de três (!?!) participantes, competindo, em turno único, por uma vaga para jogos eliminatórios, que por sua vez classificaram apenas duas equipes para a fase realmente sul-americana da competição. Dá pra levar a sério uma competição dessas? Não, não dá. A não ser que esteja em jogo, além de uma conquista questionável, alguns milhões na conta.

Para as próximas edições, vários pontos podem ser corrigidos. Ser uma segunda copa do continente, assim como foi a finada Conmenbol até alguns anos atrás, não é nenhum demérito. Pelo contrário, trará uma atenção especial ao evento.

Achei que estávamos evoluindo, já que para o ano que vem se classificaram Internacional, Atlético Mineiro, Flamengo, Goiás, Paraná e Figueirense - 6º a 11º lugares no Brasileiro desse ano -, além do Grêmio, que se classificou pelo tal ranking. Porém, descobri há alguns dias que estes clubes se juntarão aos cinco primeiros do Brasileirão, aqueles que se classificaram para a Libertadores. Ou seja, o ridículo esquema de grupos de três times deve ser reeditado. Assim, a competição perde todo o propósito. A ponto de preferirmos assistir a um filme do Cuba Gooding Jr.

terça-feira, dezembro 16, 2003

Enfim, o caminho certo...

Terminou neste domingo o primeiro Campeonato Brasileiro de futebol por pontos corridos. Hora, então, de refletirmos sobre o que deu certo e o que não deu. E não é que estamos finalmente no caminho certo? Claro que ainda tivemos alguns contratempos como partidas decididas no tapetão e corneteiros para condenar a nova fórmula, mas é inegável que este foi o melhor campeonato que os estádios brasileiros já abrigaram. E nos enche de esperança saber que nosso Brasileirão pode melhorar muito mais nos próximos anos. Pena que isso não dependa só de nós, torcedores. A classificação final das equipes comprovou que os pontos corridos são realmente a melhor e mais justa forma de se apontar quem merece as glórias. Isto fica evidente analisando as performances de alguns times.

O Cruzeiro exagerou na superioridade, terminando o campeonato com 100 pontos, 13 a mais que o segundo colocado. Seria até covardia colocar o time celeste para disputar uma ida-e-volta contra qualquer time que fosse. Com um ótimo planejamento e com um plantel muito superior aos demais, o time mineiro foi quase hors-concours. Alguns acusaram o Cruzeiro de ser excessivamente pragmático, de jogar apenas pelo resultado sem se preocupar em dar espetáculo. Na verdade, o time deu show quando podia e foi cauteloso quando devia. Prova disso? 7 a 0 na última rodada, já com as faixas.

Nunca a máxima que diz que o vice é o primeiro perdedor fez tanto sentido quanto agora. Fosse automobilismo, o Santos teria subido ao pódio, mas com várias voltas atrás do líder. Ainda assim, o peixe teve uma participação digna de ser valorizada por seus torcedores e vai participar da cobiçada Libertadores pela segunda vez consecutiva. A medalha de prata ficou no peito de quem realmente mereceu.

O São Paulo, apesar de ter ficado 9 pontos atrás do rival praiano, teve campanha semelhante ao vice-campeão. Teve fôlego para correr atrás do Cruzeiro até meados do returno, mas acabou se distanciando dos dois líderes e se contentou com a terceira vaga para a Libertadores.

São Caetano e Coritiba nunca lutaram efetivamente pelo título, mas conquistaram, na última rodada - porém com todos os méritos -, as duas últimas vagas brasileiras na Libertadores. O Coritiba teve um excelente início de campeonato, se mantendo entre os líderes durante boa parte do primeiro turno. Depois, caiu de produção, mas se segurou e garantiu a vaga no torneio sul-americano. O São Caetano foi o único time que não perdeu para o campeão Cruzeiro e na última rodada despachou o Inter, concorrente direto pela vaga na Libertadores, com sonoros 5 a 0. Quem disse que pontos corridos não dão emoção?

Falando no Inter, o colorado gaúcho, juntamente com o Atlético Mineiro, deu adeus à Libertadores na última rodada. Inter e Galo tiveram campanhas boas, porém aquém da tradição das duas equipes. Terminaram em 6º e 7º, respectivamente. Mas a posição não importou muito. O duro para os torcedores das duas equipes foi ficar de fora da Libertadores. Para os atleticanos, a dor foi mais forte, pois tiveram ainda que ver os rivais cruzeirenses conquistarem a estrelinha amarela.

Na outra ponta da tabela, várias equipes lutaram para se manter na primeira divisão e o resultado, apesar de lamentável por deixar o Vitória como único representante do Nordeste do país na primeira divisão do ano que vem, não pode ser considerado injusto. Fortaleza e Bahia colecionaram maus resultados durante toda a temporada e não conseguiram forças para reagir no final, ao contrário de Paysandu, Ponte, Grêmio e Fluminense, seus rivais na luta contra o rebaixamento, que conseguiram resultados positivos na última rodada.

A mais grata surpresa da competição foi a equipe do Goiás, que saiu do último lugar no primeiro turno para acabar numa surpreendente 9ª posição. Além disso, o time goiano fez o artilheiro da competição, Dimba, com 31 gols.

A parte triste do Brasileirão de 2003 foi perceber que o tapetão ainda é uma rotina no futebol brasileiro. Mas não conseguiu estragar o espetáculo do nosso futebol pentacampeão. Ano que vem, o show tem tudo para ficar ainda melhor, mais moralizado e reforçado por Palmeiras e Botafogo, que reconquistaram, na bola, o direito de voltar à elite. E que, assim como os outros 22 times que permaneceram na Série A, terão de mostrar um futebol digno de primeira divisão, já que ano que vem serão quatro rebaixados. Haja emoção!