terça-feira, junho 29, 2004

O que eu também não entendo


Esta nossa imprensa esportiva brasileira (ou melhor, boa parte dela) é meio louca. Durante anos, capitaneada por Juca Kfouri, fez pressão e bradou pela moralização do futebol. E faz dois ou três anos que as conquistas vêm se sucedendo. Estatuto do torcedor, campeonato por pontos corridos, enxugamento do número de equipes, dentre outros trunfos, apontam que nosso futebol está no caminho certo.

Ontem, no programa “Bem, Amigos!”, de Galvão Bueno (ele de novo), na SporTV, um dos convidados foi Ricardo Teixeira, presidente da CBF. E, como era de se esperar, Teixeira foi bombardeado por perguntas de jornalistas. O curioso é que a maioria dessas perguntas colocava em cheque a atual fórmula do Brasileirão.

A meta da CBF é rebaixar quatro clubes e subir dois até chegar ao número de 20 clubes. Sérgio Noronha questionou se este número não seria baixo. Na Itália e na Espanha, onde se jogam os dois maiores campeonatos do mundo, este é exatamente o número de equipes na primeira divisão. O argumento de Noronha era que o Brasil era um país mais extenso e com mais clubes “grandes”. Mas ignorou o fato que quanto menos clubes na divisão de elite, mais forte será a segunda divisão.

É fato que a segunda divisão nacional está cada vez mais forte. E tende a ficar ainda mais competitiva quando receber os quatro desafortunados que caírem neste ano. Ricardo Teixeira disse que, se fosse apenas por sua vontade, a primeira divisão contaria com apenas 16 clubes. Mas (isso ele não disse) há pressão dos clubes tradicionais. Talvez 16 clubes seja pouco mesmo, mas é algo para se pensar. De qualquer forma, se o formato de 20 equipes vingar, a Segundona contará com vários clubes que já foram campeões nacionais, o que inevitavelmente tornará ambas divisões mais interessantes.

Eis então que surge Rembrandt Júnior, questionando se “a fórmula de turno único classificando oito para uma fase final não seria mais emocionante?”. Lógico que playoffs são mais emocionantes do que pontos corridos. Quanto a isso não há dúvidas. O que está em questão é o que é mais justo. Seria um time colecionar pontos durante todo o ano e ficar de fora da disputa pelo título por apenas uma partida mal-jogada ou, pior, por uma apitada errada? Para os que fazem questão de emoções agudas existe a Copa do Brasil.

Por fim, Ricardo Teixeira revelou que pretende proibir os clubes de vender jogadores ao exterior durante o progresso do campeonato, medida que seria adotada já no ano que vem. Vejo com simpatia a iniciativa, mas terá que ser discutida e colocada em prática para ver se ajudará de fato ou se contribuirá para que nossos craques saiam ainda mais cedo dos nossos gramados.

Esta medida, aliás, já havia sido sugerida por um jornalista da ESPN Brasil, que agora me foge à memória, apenas um dia antes de ser anunciada por Teixeira. De qualquer forma, já ficou claro qual é a “boa parte da imprensa” a que eu me referia no início do texto.

domingo, junho 27, 2004

AC Milan Baros


A República Tcheca é a melhor seleção de futebol da Europa. Afirmo isso sem medo de errar. Ultimamente andei dando uns tiros n’água ao tentar prever quais seriam as semifinais da Euro. Errei ao não classificar Portugal e Grécia. Mas daqui a diante me limitarei a analisar o desempenho das equipes, sem mais previsões.

Para que os tchecos sejam campeões ainda há um caminho curto, mas nada fácil. Terão que passar pela Grécia, o que é provável, mas a Grécia já surpreendeu tanto que pode se dar bem de novo. Se obtiverem êxito, os tchecos ainda terão que vencer a final contra Portugal ou Holanda. Aí já fica mais difícil prever o fim dessa história e uma derrota dos tchecos pode até ser considerada natural.

Mas ainda que os tchecos não levantem o caneco, continuarão sendo a melhor e mais talentosa seleção européia, como puderam constatar todos os que viram a partida de hoje contra a Dinamarca.

O jogo começou bem equilibrado, com muito meio-de-campo e lembrando bastante a partida de ontem entre Suécia e Holanda. E foi assim durante todo o primeiro tempo, deixando os prognósticos em aberto. Mas bastou a segunda etapa começar para que o mundo pudesse ver quem está dando as cartas do futebol europeu. Logo aos 3 minutos da etapa final, o grandalhão Koller subiu e, do alto de seus 2,02m, pôs os tchecos em vantagem.

Até aí, um jogo de futebol comum. Mas, a partir deste momento, com a necessidade dinamarquesa de buscar o gol de empate e a conseqüente abertura de espaços na defesa escandinava, começou o show de Milan Baros. Aos 17, ele recebeu de Poborsky e cobriu o goleiro Sorensen. Apenas 2 minutos depois, novo lançamento, desta vez de Nedved, e chute indefensável de Baros, decretando a quarta vitória tcheca na Euro.

Agora, a República 100% tem também o artilheiro da competição. Baros balançou a rede dos adversários cinco vezes, uma a mais do que o holandês Van Nistelrooy e do que o inglês Rooney, que já voltou para a casa. Baros é craque. E, junto com Koller, Nedved e Poborsky, compõe o setor ofensivo que tem assombrado os europeus. Nem precisava tanto.

Do lado de cá do Atlântico

Enquanto isso, continuamos a acompanhar o Brasileirão mais equilibrado dos últimos tempos. Se não temos o talento de Baros, ao menos temos a oportunidade de torcer por cada pontinho, que pode fazer a diferença no final.

Tudo bem que queríamos um campeonato de melhor nível técnico, com os jogadores que hoje mostram seu valor em gramados europeus. Mas já que chorar não adianta, resta-nos torcer para que nosso time não perca pontos preciosos para um bando de cabeças-de-bagre, ignorando o fato de que o time pelo qual torcemos provavelmente também é uma seleção de grossos.

quarta-feira, junho 23, 2004

De volta para Berlim


Terminou hoje a fase de grupos da Eurocopa. Com ela, foram-se também as esperanças da seleção alemã. A seleção européia que mais tem títulos importantes (três Euros e três Copas do Mundo) deu hoje seu melancólico adeus ao ser derrotada, de virada, para a equipe reserva da República Tcheca. A terceira virada dos tchecos em três jogos, é bom que se diga.

Dentre as três eliminações de seleções tradicionais nesta etapa (Alemanha, Espanha e Itália), a alemã foi a mais previsível. Com um elenco limitado e jogando num grupo muito forte, os alemães se despediram da competição sem uma vitória sequer. Seria esta seleção a mesma que foi vice-campeã mundial dois anos antes?

A resposta a essa pergunta é difícil. Se olharmos o plantel, veremos que boa parte dos selecionados ainda é a mesma. Mas se os nomes não mudaram, o futebol alemão perdeu força. Miroslav Klose, vice-artilheiro do ultimo mundial, nem titular foi nesta Euro. O que nos leva a crer que os cinco gols que marcou em 2002 foram apenas um pouco a mais do que mero acaso. É que nesta Euro não tinha uma Arábia Saudita para a Alemanha meter oito gols logo na estréia.

Os artilheiros alemães na Eurocopa foram Ballack e Frings, com um único gol cada. Isto mesmo, o ataque alemão marcou apenas duas vezes. Klose entrou apenas no final das partidas contra Letônia e República Tcheca.

O goleiro Oliver Kahn é outro exemplo. Depois da final da Copa de 2002, o mundo descobriu que o goleirão mal-encarado não era tão bom quanto alguns imaginavam. Parece que ele mesmo se convenceu de seu real valor e foi ainda menos eficiente do que em outros tempos.

Na verdade, a Alemanha de 2002 foi vice sem brilhar muito. Venceu um grupo dos mais fáceis, que contava com um Camarões enfraquecido, uma sempre mediana Irlanda, além da tétrica Arábia Saudita. Nos mata-matas, ganhou de Paraguai, Estados Unidos e Coréia do Sul, sempre por 1 a 0, antes da derrota na final.

Do outro lado da tabela do grupo D ficou a República Tcheca. O selecionado tcheco foi o único da Euro a vencer os três confrontos desta fase. E, apesar de nunca ter se classificado para uma Copa do Mundo, a seleção tcheca não pode ser considerada uma surpresa. Ela conta com jogadores do quilate de Nedved e Poborsky e foi vice da Eurocopa de 96, perdendo a final para a própria Alemanha. Esta, aliás, foi a última vitória alemã em fases finais de Euro.

Diante dos fatos, é inevitável dizer que da seleção alemã se pode esperar tudo, inclusive nada.

Previsões para os mata-matas

Só para não perder o costume, aí vão meus palpites para as quartas-de-final da Euro: classificam-se Inglaterra, França e República Tcheca. E ainda tem Suécia x Holanda, que tem tudo para ser um jogão dos mais equilibrados. Posso marcar um duplo?

terça-feira, junho 22, 2004

Ciao, Azzurra!


A bandeira abandonada nas tribunas do Estádio D. Afonso Henriques, em Guimarães, denuncia: a Itália deu adeus à Eurocopa na tarde de hoje. Ficou em terceiro lugar no Grupo C, atrás de Suécia e Dinamarca e melhor apenas do que a Bulgária, única equipe que não pontuou na competição.

Para que os italianos se classificassem, era necessário vencer a Bulgária e torcer para que o jogo entre suecos e dinamarqueses terminasse com um vencedor. Com uma vitória simples da Itália e um empate no clássico escandinavo, o grupo ficaria embolado, com as três equipes com 5 pontos. Assim, os donos das vagas seriam decididos nos gols marcados, pois os times ficariam rigorosamente empatados nos outros critérios.

O medo dos italianos era que a partida entre Suécia e Dinamarca terminasse empatada em 2 a 2, resultado que classificaria as duas equipes nórdicas, independentemente do placar do jogo dos italianos. Como era um resultado muito provável, as especulações acerca de uma combinação entre as duas equipes começaram bem antes da bola rolar. Os italianos temiam, a imprensa previa, os nórdicos desconversavam.

E tudo que a Itália temia foi o que realmente aconteceu. O time começou perdendo e conseguiu virar o jogo contra os búlgaros nos acréscimos. Mas já era tarde demais. Com o empate nos temidos 2 a 2 na outra partida, a Azzurra deixou a Euro invicta. Mas sem convencer, para que sejamos justos.

Tudo bem que o clássico foi aquém do que as equipes podem render. Mas não teve cheiro de marmelada. O jogo, que pegaria fogo se apenas uma vaga estivesse em disputa, foi apenas morno. Mas não acredito que houve um acerto para amarrar a partida. O empate aconteceu naturalmente. Seria prudente para a Dinamarca atacar insistentemente quando estavam ganhando por 2 a 1? Mesmo assim, os vermelhos foram bastante à frente e por pouco não golearam.

Só no finzinho da partida é que os zagueiros suecos ficaram tocando a bola preguiçosamente esperando pelo apito final. O suficiente para que os italianos chiassem. Logo eles, que idolatram um empate.

domingo, junho 20, 2004

Dando o braço a torcer II – E não é que deu Portugal?


Durante estes últimos dias, desde que foi jogada a segunda rodada do Grupo A da Eurocopa, eu coloquei várias vezes a Espanha como favorita no confronto contra Portugal. Tinha motivos para tanto. A Espanha tem melhor elenco e não perdia para Portugal desde 81. Não sou muito de acreditar em retrospecto, mas quando ele é muito favorável a uma equipe, costuma representar alguma coisa.

Pois bastou a bola rolar para minhas idéias começarem a mudar. A Espanha começou a partida preocupada exclusivamente em não levar gols. E aí, vocês sabem, começou o desastre espanhol. Portugal, ao contrário, foi objetivo e levou bastante perigo ao gol de Casillas na primeira etapa. Mas o gol não saiu nos primeiros 45 minutos.

Felipão falou após a derrota da seleção portuguesa para a Grécia que dali para frente começaria a fase de mata-mata para Portugal, já que o time não poderia mais sequer empatar. E o precioso gol que sua equipe precisava teimava em não sair.

Enquanto isto, a Rússia largava na frente da Grécia no outro jogo da chave. Começou ganhando por 2 a 0 e acabei me lembrando da Copa de 94, quando a mesma Rússia, já eliminada, goleou os também eliminados camaroneses. Será que os russos só jogam bem quando não vale mais nada?

A esta altura, fiz as contas e vi que a Espanha chegaria a 5 pontos, deixando Portugal e Grécia com 4, mas com melhor saldo para Portugal. Deduzi, então, que os resultados daquele momento classificariam os rivais da Península Ibérica.

Daí o narrador da partida esclareceu que o primeiro critério de desempate era o confronto direto e não o saldo de gols. Achei estranho, mas não injusto. E, como os gregos haviam ganho dos portugueses, se classificariam junto com os espanhóis. A esta altura, os gregos diminuíram para 2 a 1. Para Portugal, então, não restou alternativa senão a vitória.

Começa o segundo tempo e Felipão saca Pauleta para a entrada de Nuno Gomes. Além de bom técnico, Scolari ainda nasceu com a bunda virada para a lua. É exatamente Nuno Gomes quem acerta um petardo de fora da área para colocar os portugueses em vantagem.

Daí, como era de se esperar, os papéis se inverteram. A Fúria espanhola atacava e o exército de Scolari se defendia como podia. E a sorte estava mesmo do lado lusitano: foi um festival de chances espanholas, com direito a duas bolas na trave.

Mas como Felipão não quis abusar da sorte, tratou de enfiar mais defensores no time, tirando Figo e Cristiano Ronaldo. Convite a levar um gol? Não. Era o dia de Portugal e, mais do que isso, era o dia de Felipão. Nada poderia dar errado.

E não deu. Foi assim que os portugueses conquistaram a suada vaga para os mata-matas da Euro, neste que foi um dos melhores jogos da competição até agora. Aliás, cada dia um jogo vira candidato a melhor jogo. Primeiro foi França e Croácia. Depois, Itália e Suécia. Ontem foi República Tcheca e Holanda. Vocês se atrevem a perder os jogos de amanhã?

sexta-feira, junho 18, 2004

Do bom e do melhor


Se o Sô Enderson disse que não está gostando do nível da Eurocopa, é direito dele. Entendo suas razões. Para quem teve o privilégio de acompanhar o futebol de Zico, Maradona e Platini, é mesmo complicado aceitar Beckham e Figo como craques. Mas tenho certeza que ele me permitirá discordar de suas impressões.

Para mim, tão importante quanto o drible magistral e o gol antológico é a aura que cerca esse tipo de competição. Gramados impecáveis, torcidas se confraternizando, seleções estreando novos modelos de uniformes. São inúmeras as coisas que só costumam ocorrer com tamanha intensidade numa Copa do Mundo... e numa Eurocopa!

Isso contribui muito para a boa impressão que estou tendo deste torneio. É claro que os fatores extracampo sozinhos não me fariam empolgar. Mas não estou achando o nível técnico desta copa decepcionante. Confesso que já passei da fase de ver os jogos seis horas depois pelo SporTV 2. Porém, ontem tive a tarde livre e pude assistir à rodada do Grupo B ao vivo. E quem também teve esta oportunidade irá concordar comigo: foram dois jogões.

A primeira partida foi entre Inglaterra e Suíça. Os ingleses mordidos por conta da derrota inesperada para a França e os suíços com ar de resignados diante da derrota iminente. Um jogo gostoso de se ver, muito por conta do goleiro Steil, da Suíça. Já citado por mim em oportunidades anteriores, ele é mesmo um show à parte. Deu vários tchauzinhos para a torcida inglesa, fez caras e bocas e pôs a bola, de cabeça, para dentro da própria meta. No lance infeliz do segundo gol da Inglaterra, a bola bateu na trave, voltou em Steil e entrou, lembrando o brasileiro Carlos na Copa de 86. Placar final, Inglaterra 3 a 0.

No jogo de fundo, a França embalada pegaria a Croácia, que não passou de um empate com os suíços na primeira rodada, apesar de ter jogado com um jogador a mais por quase todo o segundo tempo. Vitória fácil para os franceses? Que nada! A França marcou no primeiro tempo, mas a Croácia virou no segundo. E os franceses foram buscar o empate com um gol de Trezeguet, que mostrou oportunismo, mas também um bocado de sorte. E a partida, a melhor da competição até agora, terminou em 2 a 2.

Mas a partida mais fantástica do dia não estava reservada para os tapetes europeus. Foi jogado aqui mesmo, na América do Sul. No Monumental de Nuñez, para ser mais preciso. A segunda batalha entre Boca e River foi um jogo como poucos. Tanto que seria quase uma heresia tentar comentá-la. Quem viu, dificilmente esquecerá.

Hoje não pude ver a vitória da Dinamarca sobre a Bulgaria por 2 a 0. Nem o empate por 1 a 1 entre Itália e Suécia que, segundo o que ouvi dizer, foi um ótimo jogo. Paciência. Já seria querer demais.

quarta-feira, junho 16, 2004

Sobraram 15


Como todas as seleções da Eurocopa já estrearam, me aterei às primeiras impressões sobre a competição européia e suas 16 equipes aspirantes ao título. Ou melhor, 15, já que hoje a Rússia deu adeus a suas chances matemáticas de chegar à segunda fase.

No Grupo A, único que já realizou duas rodadas, a briga está boa. Se não é a chave onde o bom futebol se destacou, é ao menos de onde saiu a principal surpresa da copa até agora: a seleção grega. Com 4 pontos, a Grécia só corre o risco de ficar de fora dos mata-matas se perder para a já eliminada Rússia, dependendo ainda do jogo entre Portugal e Espanha. E, cá entre nós, será parada duríssima para o time de Scolari. Sou mais a Espanha, que joga sempre um futebol gostoso de se ver, diferente dos patrícios, que foram burocráticos na primeira partida e só no segundo jogo conseguiram se encontrar. Pode ser que seja tarde demais.

O Grupo B é onde se localiza o abismo entre França, Inglaterra, Croácia e Suíça. No caso, o abismo separa o bom futebol de franceses e ingleses do futebol medíocre de croatas e suíços. A Inglaterra tem um bom elenco e estilo de jogo eficiente, apesar de ter dado de bandeja a vitória aos franceses. A França tem futebol bonito, mas extremamente dependente de Zidane. Mas como, ao contrário de 2002, ele está bem, isto pode levar os bleus ao título. Não que nesse grupo não haja espaço para surpresas. Mas, sendo sincero, é muito difícil que França e Inglaterra deixem de se classificar. A Croácia, que poderia se destacar, mostrou no jogo contra os suíços ser mais fraca do que se imaginava.

O Grupo C é um grupo interessante de se observar e teve as melhores partidas da competição até agora. Na primeira delas, entre Itália e Dinamarca, os goleiros foram fundamentais para que o jogo permanecesse sem gols. E foi mesmo de tirar o fôlego as defesas de Buffon e Sorensen. No jogo de fundo, a Suécia goleou a Bulgária por 5 a 0. Mas não pensem que a Bulgária é a pior equipe da competição. Ela ainda pode trazer dores de cabeça para italianos e suecos. A Azzurra, como sempre, já começou sua sina de se complicar em fases classificatórias de competições importantes. Mas se o roteiro não tiver sido alterado, no final os italianos seguem em frente.

No Grupo D se encontram as seleções mais simpáticas da copa. Quem não está torcendo por ao menos uma vitória da Letônia, do goleiro Pucinskis (foto)? E quem não admira o futebol de Nedved (foto) e Poborsky? Pois a partida entre letões e tchecos foi muito boa e ambas seleções continuam no páreo, com vantagem para a seleção tcheca que, além de ter ganho de virada, tem melhor elenco. Agora, as duas seleções enfrentaram as tradicionais equipes da chave: a Alemanha e a Holanda, da mística camisa alaranjada. Aliás, tradicionais até demais: a Alemanha continua com o velho estilo cruzamento-cabeceio-encontrão-retranca. E a Holanda mantém sua profusão de bons jogadores, mas mostrou ter um setor defensivo fraco, o que pode contar muito daqui para frente.

Daqui a diante, as partidas devem ser ainda mais emocionantes, já que valerão passaportes para a segunda fase e passagens de volta para a casa. E, como não temos a obrigação de torcer pela seleção de amarelo, podemos apenas relaxar e aproveitar esta competição que é quase tudo que o futebol tem de melhor.

segunda-feira, junho 14, 2004

A Copa do Sportv 2...

Poucos são os afortunados que possuem TV por assinatura. Menos ainda são aqueles que podem se dar ao luxo de assistir à TV na hora que bem entenderem. Para os amantes do futebol que, como eu, pertencem ao primeiro grupo mas não ao segundo, o SporTV 2 tem sido o canal preferido neste mês de junho.

Explico: na hora das partidas da Eurocopa, que começam às 13h e às 15h45, horário do Brasil, a maioria de nós, brasileiros, se encontra no trabalho. Para quem não tem ânsia por assistir um Grécia contra Rússia, nada de anormal. Mas para quem não resiste nem a uma pelada como esta, o SporTV 2 pode ser a salvação.

O canal, que normalmente exibe a mesma programação do SporTV com seis horas de atraso, acaba gerando situações curiosas. Ontem, por exemplo, como não pude assistir às partidas ao vivo, evitei acessar sites esportivos e conversar sobre futebol com amigos para não descobrir de antemão os resultados dos jogos do grupo B. E assisti às partidas seis horas mais tarde como se elas estivessem acontecendo na hora.

Já aos 40 e tantos minutos do segundo tempo de Inglaterra e França, quando eu pensava que a fatura já estava liquidada a favor dos ingleses, fui encorajado por minha namorada, que já sabia o resultado final, a continuar com o olhar grudado na TV porque os gols ainda não haviam terminado. Não poderia imaginar que a França viraria a partida.

Hoje tentei repetir o expediente. Mas acabei descobrindo antes que a Suécia havia goleado a Bulgária por 5 a 0. É que em dias úteis fica mais difícil ignorar o resultados, já que na universidade existem muitos fanáticos por futebol. Quase tão fanáticos quanto eu.

...é a Copa dos goleiros


Nestes três primeiros dias de Eurocopa, os goleiros têm chamado atenção. Às vezes pelo bom desempenho, caso de Buffon, da Itália, e Sorensen, da Dinamarca, que foram os responsáveis pelo placar em branco no jogo entre as duas equipes.

Mas os arqueiros também protagonizaram lances curiosos. No jogo entre Inglaterra e França, Barthez foi traído pelo montinho artilheiro (nós de novo!) e levou uma forte bolada no nariz. No caso, o montinho foi mais assassino do que artilheiro.

Mas o goleiro que mais se destacou foi o suíço Steil. Dono de um semblante peculiar e de gestos estabanados, é quase sósia do comediante Rony Cócegas. No lance mais estranho do empate sem gols entre Suíça e Croácia, Steil estava adiantado e foi surpreendido por um chute do meio do campo. O goleiro voltou correndo para a meta e, percebendo que alcançaria a bola a tempo, defendeu com a cabeça (foto). Neste momento, foi inevitável lembrar de outro legendário goleiro: o sueco Thomas Ravelli.

domingo, junho 13, 2004

Nem Deus salva a rainha


Apesar do baixo nível técnico das quatro primeiras partidas, que movimentaram os Grupos A e B, a Eurocopa começou quente. Se falta futebol de qualidade nos gramados portugueses, sobra dramaticidade e emoção nos corações dos torcedores.

A família lusitana de Felipão começou a competição com uma desastrosa derrota frente ao fraco selecionado grego, no Estádio do Dragão. Para se ter uma idéia da fragilidade dos descendentes de Aquiles, o jogador Karagounis marcou o primeiro gol grego na fase final de uma grande competição internacional dos últimos 24 anos. Ele deve estar muito agradecido ao autor do presente, o lateral Paulo Ferreira, atual campeão da UEFA Champions League pelo Porto.

Por outro lado, ou melhor, pelos lados a seleção portuguesa também não conseguiu nada. O real fruto de Madrid parece já ter apodrecido, Simão Sabroza deixou de fazer macacadas e o Ronaldo deles, apesar de ter marcado o gol de honra, rodopia muito mas não acerta um cruzamento.

Espanha e Rússia fizeram uma partida muito fraca. Até que nos primeiros minutos a equipe espanhola deu alguns lampejos de bom futebol, mas rapidamente o trio do campeoníssimo Valência (Albelda, Vicente e Baraja) se perdeu em campo. Sorte que do outro lado a equipe de Puttin apresentava um futebol de pouca paixão, mesmo com Mostovoi e Izmailov.

O jogo entre Suíça e Croácia não merece nem comentário, na verdade não mereceu mais do que 40 minutos da minha atenção. Ao contrário, a partida mais aguardada do final de semana reservou para os amantes do esporte bretão um final emocionante.

A Inglaterra teve um bom desempenho no primeiro tempo e chegou à vantagem no marcador com um gol de Lampard. A equipe francesa mais uma vez apresentou um futebol decepcionante e dava indícios de repetir a exibição da primeira partida da Copa de 2002.

Na segunda etapa, a partida perdeu em qualidade mas ganhou em emoção. Assim como fez na partida contra o Brasil na última Copa, o Spice Boy pipocou novamente e perdeu um pênalti, que poderia garantir mais uma vitória para ele e seus parceiros. Deram mole para o azar, que com o nome de Zidane, virou a partida nos acréscimos.

quinta-feira, junho 10, 2004

Davi contra Golias


Quarta-feira agitada para o futebol brasileiro. XV de Campo Bom e Santo André definindo uma vaga para as finais da Copa do Brasil, Vitória e Flamengo fazendo o primeiro jogo da outra semifinal e o São Paulo jogando sua sorte na Libertadores.

E eu me deparei com um dilema logo após Fernando Amorim ter pegado Renato Mendes no flagra: assistir ao jogo entre os “grandes” rubro-negros ou ao confronto entre as surpresas da Copa do Brasil. O jogo do São Paulo estava fora de cogitação. Seria minha escolha, mas não estava sendo transmitido.

O coração me pedia para assistir à partida entre XV e Santo André. A cabeça também. Mas a fome de bola me fez tomar a decisão de assistir a um tempo de cada jogo. A primeira metade de Vitória e Flamengo e a segunda de XV de Campo Bom e Santo André.

Acontece que o jogo no Barradão não foi bem futebol. Talvez uma mistura deste com caratê. Só sei que foi chato. Muito chato. O momento mais emocionante foi quando o narrador Luís Roberto anunciou que o Santo André havia empatado o jogo em Porto Alegre.

Primeiro tempo acabado, hora de comer alguma bobagem, ir ao banheiro, mudar de canal e se preparar para o segundo tempo do jogo no Olímpico. Para deixar todos inteirados, vou fazer um breve resumo da primeira etapa do jogo das surpresas: o XV, que já havia ganhado o primeiro jogo em São Paulo, por 3 a 2, começou melhor, pressionando e, logo aos 9 minutos, Belmonte abriu o placar para os quase donos da casa.

O Santo André precisaria, a partir de então, marcar três gols para se classificar. Aos poucos, o time do ABC começou a equilibrar as ações e chegou ao empate aos 40 minutos, com ótima jogada de Sandro Gaúcho.

No segundo tempo, o Santo André começou avassalador. O mesmo Sandro marcou, desta vez de cabeça, aos 5 e Makanaki ampliou aos 17. Com o resultado que lhe servia, o time do ABC recuou e o que se viu a partir dali foi uma partida muito emocionante, com o XV pressionando, mas errando nas finalizações. Ou parando nas mãos do bom goleiro Júlio César, que fazia sua primeira partida após seis meses de molho por conta de uma fratura na mão.

Em meio à pressão gaúcha, chega a notícia: gol do Flamengo no Barradão. Fabiano Eller marca com desvio providencial do zagueiro do Vitória. E este acabou sendo o último gol da noite.

Ficou assim. Santo André classificado para a final, Flamengo quase lá, já que ganhou fora de casa e empate sem gols no jogo do Morumbi, que acabou ficando em último plano.

Então, fiquei imaginando a final, entre Santo André e o rubro-negro, que, se não for o da Gávea, será o de Salvador. Na verdade, não muda muito. Será uma batalha de Davi contra Golias (que não é o Parreira). Quem conhece a Bíblia tem uma intuição muito forte sobre quem será o campeão da Copa do Brasil. Quem viu os jogos desta noite também.

quarta-feira, junho 09, 2004

Os pés pelas mãos


Foi entre as décadas de 70 e 80 que o futebol-arte morreu. Sim, vocês podem não ter percebido, mas o futebol alegre ficou gravemente ferido com a derrocada do carrossel holandês e veio a falecer com o fracasso da nossa seleção frente à italiana, em 82, na tragédia do Sarriá.

O que vemos hoje, então, nos pés de Ronaldinho Gaúcho, Robinho e Zidane, entre outros poucos, são mensagens psicografadas do querido e saudoso futebol moleque. Sua alma viverá para sempre em nossos corações.

Mas o futebol atual também tem seu charme. Pode não ter lances com a grife de Pelé e Maradona (este último já um médium da bola), mas tem ares de guerra, sendo cada vez mais um esporte físico e tático. Uma guerra pacífica, na maioria das vezes. Com soldados desarmados (vez ou outra eles se armam, é verdade) e generais discípulos de Sun Tsu, estejam eles de terno ou de abrigo.

Com o passar do tempo, o esporte foi, cada vez mais, ganhando defensores e perdendo atacantes. O futebol moderno fixou o 4-4-2 e o 3-5-2 como esquemas táticos ideais. Eles são hoje os mais difundidos e, embora uma partida possa terminar com os times jogando num 2-7-1 contra um 1-2-1-2-1-2-1, as formações iniciais quase nunca fogem aos tradicionais esquemas.

O duro é perceber que não só no futebol, mas como em vários esportes similares, a defesa é realmente mais crucial que o ataque. Primeiro você arruma sua cozinha, trata de evitar os pontos adversários para, aí sim, tentar marcar seus tentos. É um raciocínio mais do que óbvio, porém muitas vezes os torcedores se esquecem dele, na ânsia de gritar gol. Na guerra, a filosofia também vale. E como seria bom se todos só pensassem em se defender e nunca, mas nunca mesmo, resolvessem atacar.

Só que, no futebol, recuar ao máximo é convidar a bola para beijar o barbante. Às vezes, por capricho, ela reluta em entrar e fica apenas zanzando pelo quintal da equipe atacada. Mas a redonda tem personalidade forte e, na maioria das vezes, ela entra sorrateiramente na meta da equipe que fica se defendendo demais. Vide o último jogo da seleção brasileira.

Na verdade, a bola foi casada com o futebol-arte e ainda o ama muito. E castiga todos aqueles que teimam em não respeitar sua memória.

terça-feira, junho 08, 2004

Tiros no escuro


Terminadas as rodadas das eliminatórias sul-americanas, os olhos do mundo se voltam novamente para o Velho Continente, onde acontece, a partir do próximo sábado, a Eurocopa. Hora, então, de fazermos nossas previsões para o torneio, ainda que, daqui a um mês, tudo vá por água abaixo. Faz parte do futebol e, principalmente, da paixão pelo futebol. Se alguém conseguisse prever com toda a certeza quem ganharia, perderia toda a graça.

Então irei, grupo por grupo, dar meus tiros no escuro. Os números entre parênteses indicam a posição em que os clubes irão ficar, segundo minhas intuições. Quem quiser seguí-las, pode sentir-se livre. Mas aviso, desde já: não faremos devolução do dinheiro caso o produto venha com defeito.

Grupo A – Espanha (1º), Grécia (4º), Portugal (2º) e Rússia (3º).

O destaque será a partida da segunda rodada: Portugal conta Espanha, o clássico da Península Hibérica. Portugal é uma boa seleção e leva a vantagem de jogar em casa, mas a Espanha é a seleção mais forte do grupo. A Rússia é uma seleção apenas mediana, mas com chances de classificação. A Grécia é mesmo o azarão desta chave, apesar de não ser mais a baba de outros tempos. Mas, até por isso, os confrontos gregos devem ser observados com atenção. Quem menosprezá-los deve perder pontos que podem custar a vaga. Assim como fez a própria Espanha, que perdeu em casa para os gregos por 1 a 0, na fase de classificação.

Grupo B – Croácia (3º), França (2º), Inglaterra (1º) e Suíça (4º).

Alguns podem achar que estou louco ao colocar a Inglaterra como possível campeã do grupo. Mas posso explicar. Na verdade, considero as duas seleções inglesa e francesa no mesmo patamar e colocar a primeira como líder foi mero capricho. Qualquer um dos dois rivais pode ganhar o confronto entre eles (aliás, este deve ser um dos melhores jogos da competição) e terminar em primeiro da chave. A Croácia corre por fora, mas não é mais aquela sensação de 98. As vagas devem ficar mesmo com França e Inglaterra, já que a Suíça é candidata a saco de pancadas do grupo.

Grupo C – Bulgária (4º), Dinamarca (1º), Itália (2º) e Suécia (3º).

Esta é, de longe, a chave mais equilibrada da Euro 2004. Aqui, não é clichê dizer que tudo pode acontecer. Coloquei a Itália em segundo porque a Azurra tradicionalmente gosta de um empatezinho, sempre perdendo pontos em fases de classificação. Quem deve pagar o pato pelo estilo ultradefensivo do selecionado da terra da pizza é a Bulgária, adversária dos italianos na última rodada do grupo. Rodada esta que terá também o clássico entre Dinamarca e Suécia, com ligeira vantagem para os vermelhos.

Grupo D – Alemanha (3º), Holanda (1º), Letônia (4º) e República Tcheca (2º).

Apesar de ser o único que não irá abrigar um grande clássico, este grupo tem tudo para ter os melhores jogos no aspecto técnico. É que Holanda e República Tcheca costumam jogar um futebol muito bonito, apesar da pouca eficiência. Já a Alemanha é tradicionalmente uma equipe brucutu, porém eficaz. No duelo entre futebol-arte e futebol de resultados, resolvi arriscar meus palpites no primeiro e ousar, “classificando” Holanda e República Tcheca. A Letônia é a surpresa da Euro, mas caiu num grupo forte e não deve passar para as quartas.

A partir daí, as partidas são eliminatórias e fazer previsões fica ainda mais difícil. Mas, como um filho do Montinho Artilheiro não foge à luta, aí vão meus favoritos para a conquista da taça: Inglaterra, França e Holanda são meus palpites. Apesar das outras treze boas equipes que correm por fora.

sexta-feira, junho 04, 2004

Recordar é viver



As imagens acima foram feitas durante as eliminatórias para a Copa de 2002, mas valem para o panorama atual. O cartaz da esquerda foi feito por uma marca de preservativos e ganhou as ruas de Buenos Aires antes de um confronto contra o Brasil. Como no confronto anterior à publicidade o Brasil havia ganho por 4 a 2, o cartaz vinha com os dizeres "Já estamos pensando na revanche". O placar final da partida foi 3 a 1 para o Brasil, como agora, e a resposta veio à altura. O cartaz da direita foi feito por publicitários brasileiros e colocado na cidade argentina, mais ou menos onde ficavam os anteriores.

A foto acima marca a nova fase em que nosso site está entrando a partir de hoje. Com algumas alterações já feitas e outras ainda a serem implementadas, acreditamos que a navegação em nosso ambiente se tornará cada vez mais divertida e agradável. Quase tão boa quanto ganhar da Argentina como fizemos nesta quarta.

E, falando em novas fases, o triunfo do Brasil marca o empate do Brasil no confronto direto contra a Argentina: a seleção brasileira acaba de igualar à argentina em número de vitórias, empatando um desafio que era historicamente favorável aos argentinos.

Na verdade, este é um ponto polêmico. Alguns dizem que o Brasil ainda está uma vitória atrás. Outros já creditam ao selecionado brasileiro uma vitória de vantagem. Claro que isto se deve a questões de interpretação. Por exemplo: alguns, mas nem todos, consideram válida a partida de 12 de outubro de 1920, disputada em Buenos Aires, quando os dois times entraram com apenas oito jogadores para cada lado.

Como este, existem outros exemplos. Porém, a contagem mais aceita é mesmo a que contabiliza 33 vitórias para cada seleção. Mas, puxando descaradamente a brasa para nossa sardinha, afirmo com convicção que ganhamos as partidas mais importantes. Se duvidam, vamos recapitular.

Para começo de conversa, temos uma vitória a mais em Copas do Mundo, duas contra uma, com um empate. Temos também um triunfo de frente em eliminatórias para a Copa (também duas contra uma, mas desta vez sem nenhum empate). Se considerarmos que as eliminatórias fazem parte da Copa, como dizem alguns, são dois jogos de vantagem.

Para os hermanos, sobra o consolo de ter 15 vitórias em Copas América, contra apenas oito vitórias brasileiras, contabilizando ainda sete empates. Vantagem respeitável em uma competição não tão respeitável assim. Para chegarmos ao placar de 33 a 33, com 21 empates, temos que incluir aí torneios de menor expressão, como a Copa Roca, a Copa Atlântica e a impagável Copa do Bicentenário da Austrália.

Segundo esta contagem, os argentinos levam também pequena vantagem no saldo de gols, 143 contra 137, uma ligeira dianteira de seis golzinhos. Nada que Oscar Ruíz e seus colegas não possam resolver.

quarta-feira, junho 02, 2004

Pelo caminho da paixão

Belo Horizonte acordou vestida de verde e amarelo na manhã de hoje. Seria muito clichê dizer isto, se não fosse a mais pura verdade. Boa parte dos belorizontinos amanheceram no clima do jogo de hoje e a cidade está bem bonita. Claro que não é nada comparável à mobilização que existe em época de Copas do Mundo. Mas nas Copas, o Brasil joga sete vezes (quando tudo dá certo) e hoje será apenas uma única partida. Comparativamente, a euforia para o jogo de hoje foi muito maior.

Eu acordei vestido de pijama, mais cedo do que pretendia e com vontade de dormir mais. Também seria clichê dizer isto, mas também é verdade. Porém, desde o despertar, sabia que seria um dia longo devido à expectativa e, ao mesmo tempo, curto para fazer tudo o que iria desejar, já que a porção noturna das próximas 24 horas seria dedicada ao jogo de logo mais. Como, mais tarde, fiquei sabendo que meu amigo Enderson estava ainda mais atarefado que eu, sobrou para mim escrever o texto de hoje, o que eu descobri, com o passar do dia, que seria um prazer.

Estava eufórico não só por causa do duelo, mas também por outros motivos. Pouca gente por aqui sabe, mas hoje se comemora a Proclamação da República da Itália. Para maioria dos brasileiros, uma data qualquer. Mas, para mim, uma data muito especial. Resolvemos, eu e alguns outros filhos de filhos de filhos da "bota", juntar a fome à vontade de comer macarrão e combinamos nos reunir com as duas finalidades: comemorar o Dia da Itália e a vitória do Brasil.

Ao sair de casa, ainda bem cedo rumo à universidade, minha alegria se misturou à da cidade. Logo perto de minha casa, está o hotel onde está hospedada a delegação argentina. Passando por lá, resolvi observar em volta e ver o que Marcelo Bielsa veria se resolvesse dar uma olhadinha pela janela. De um lado, uma churrascaria toda enfeitada com balões nas cores de nosso país. Do outro, um imenso outdoor com quatro homens vestido a camisa amarela. Um cenário não muito acolhedor para os argentinos.

Chegando na UFMG, vi uma cena no mínimo curiosa: dois sujeitos, aparentando ter seus vinte e muitos anos, jogavam bola num terreno totalmente inadequado para a prática do futebol. Pensei se essa ânsia toda pela bola tinha algo a ver com o jogo de hoje e não cheguei a conclusões definitivas. Melhor assim, fiquei com uma dúvida confortável.

Daí pensei numa coisa que muitos reclamam, principalmente aqueles que não gostam muito do futebol: "só o futebol dá ao brasileiro o orgulho de nascer aqui. Em outras situações, costuma ocorrer o inverso". Então pensei que, quando as pessoas se vestem de amarelo, estão externando sua paixão não tanto pelo país, mas pelo jogo.

Agora, após escrever estas linhas, rumarei para o local onde vou assistir à partida. Por coincidência, será na casa de um amigo que mora bem perto do Mineirão. Se chegarmos à esquina, dará para ver o palco do clássico. Se ficarmos parado, ainda assim, poderemos ouvir os gritos quando for gol do Brasil.

Muitos poderiam achar que eu vivi hoje tudo o que um torcedor do Brasil pode querer, menos o principal: viver a expectativa da partida, mas não ir ao jogo. Vou discordar. Hoje foi um dia muito bom e é até melhor que eu não vá mesmo ao Mineirão, sob risco do dia perder o encanto, por vários motivos que os freqüentadores de estádios sabem bem. Hoje, vou dormir com uma certeza: eu percorri o caminho da paixão pelo futebol.

terça-feira, junho 01, 2004

Mudando de assunto

Como já analisamos bastante o confronto entre Brasil e Argentina, tentarei hoje falar sobre outros assuntos que não o clássico de amanhã. De antemão, sei que será uma tarefa complicada. Não bastasse ser o assunto mais comentado pela imprensa e mais procurado pelos torcedores, ele causou o recesso de todas as outras competições futebolísticas.

Com o fim da temporada européia e as supracitadas mini-férias dos clubes brasileiros, sobrou-me fazer um breve balanço destas oito primeiras rodadas do nosso Brasileirão.

A grande surpresa é, sem dúvida, os times catarinenses. O Criciúma está liderando e o Figueirense está em sexto, mas apenas um ponto atrás. Quem, fora de Santa Catarina, poderia prever um início tão bons dos clubes barrigas-verdes?

Aliás, outra surpresa positiva tem sido o equilíbrio da competição. Claro que é muito cedo para afirmar que será assim até o final, mas há indícios que o campeonato ficará embolado por muitas rodadas ainda. Apenas dois pontos separam o líder Criciúma do Fluminense, o 11º na tabela. Isso sem contar o alerta de nosso leitor Álisson Frango: São Caetano e Juventude têm um jogo a menos e podem embolar ainda mais a ponta de cima da tabela.

No lado de baixo, algumas surpresas dividem espaço com as favas contadas. Paysandu, Botafogo, Flamengo, Guarani e Corinthians, por exemplo, foram indicados por muitos como candidatos ao rebaixamento, antes mesmo da bola começar a rolar. Mas Santos e Coritiba não deixam de ser surpresas. Por outro lado, a rabeira da tabela é ainda mais volúvel que o topo e uma simples vitória pode deixar o time ameaçado em situação um pouco mais confortável. Resta saber quando Botafogo, Flamengo e Paysandu conseguirão vencer.

A verdade é que o Campeonato Brasileiro começou muito bem. Tão bem que o clássico de amanhã terá a obrigação de ser um jogaço. Do contrário, trocaremos a camisa amarela pela de nosso clube preferido e pediremos o fim do recesso, para que cada um possa defender as cores do seu coração.