sábado, julho 10, 2004

Nivelado pelo meio


Não sou muito a favor de que os clássicos regionais sejam disputados todos na mesma rodada. É que clássico, seja ele qual for, quase sempre é um jogo muito gostoso de se assistir. Imaginem ver um Grenal num fim-de-semana, um Atletiba no sábado seguinte, seguido de um Atlético x Cruzeiro. Emoções garantidas a cada semana.

Como se não bastasse, os clássicos, desta vez, ficaram todos espremidos no sábado, vários acontecendo ao mesmo tempo, já que amanhã teremos jogo da seleção. Acabei assistindo a Santos e São Paulo, que foi a opção que a Vênus Platinada me ofereceu.

Disputada entre equipes que freqüentam a ponta de cima da tabela, badaladas pela imprensa como favoritas ao título e comandadas por dois treinadores que eu admiro, a partida da TV de hoje tinha tudo para ser um jogão. Já adianto que não foi bem assim.

O São Paulo começou melhor. Bem melhor, aliás. Mas começou a perder o jogo logo no início, pois este era o momento para massacrar o setor defensivo santista, que não é tão bom quanto dizem por aí. O tricolor foi excessivamente cauteloso, jogando nos contra-ataques, mas ainda assim inaugurou o placar. Aos 24 minutos. O jovem e promissor zagueiro Domingos, do Santos, escorregou, Vélber agradeceu e cruzou para Danilo, de cabeça, abrir o placar.

O São Paulo crescia no jogo, quando, aos 32, sofreu um contra-ataque. Robinho venceu a marcação e, pela direita, cruzou para Deivid, que só teve o trabalho de empurrar.

A partir daí, o que se viu foi uma partida de um time só. O Santos pressionava, mas poucas vezes levava real perigo ao gol defendido por Rogério Ceni. Ainda no primeiro tempo, o Santos teve um gol de Robinho corretamente anulado e, logo após, Elano tentou cruzar e acertou a trave são-paulina.

Na segunda etapa, a expulsão do zagueiro Fabão, do São Paulo, facilitou as coisas para o Peixe. Aos 12 minutos, o beque foi expulso por duas entradas fortes em Basílio, quase em seqüência. Ainda assim, o time santista foi pouco objetivo.

Já nos acréscimos, quando a partida caminhava para um modesto empate, Ricardinho cobrou falta da entrada da área, decretando a virada do Peixe.

Clássico acabado, hora das conclusões: os dois times são bons, com potencial para serem campeões, mas não são os principais favoritos, como afirmou Casagrande durante a transmissão. Casão apontou também o Palmeiras como candidato ao caneco. Se “esqueceu” de São Caetano, Cruzeiro, Internacional e, principalmente, ignorou que ainda tem muito jogo pela frente.

Também é relevante dizer que o jogo poderia ter sido decidido a favor do São Paulo, ainda no primeiro tempo. E que, apesar dos dois técnicos estarem entre os melhores do Brasil, Luxemburgo ainda é bastante superior ao seu colega tricolor.

Por último, mas não menos importante, destaco a crescente melhora técnica do campeonato nas últimas rodadas. Se a competição começou entediante, já está bem longe disso. Serei prudente em não a classificar ainda como o melhor Brasileirão dos últimos tempos. Por ora, estamos “nivelados pelo meio”.

quinta-feira, julho 08, 2004

Que bonito é!


No momento em que escrevo este texto, o Brasil faz sua estréia na Copa América. Jogo nervoso, estréia tensa? Que nada! O chavão dos jogos de estréia não se aplica desta vez. Nem que a seleção brasileira tente, conseguirá ser eliminada na primeira fase. Esforço, só se for pra evitar um confronto prematuro com a Argentina.

Por isso, vou guardar meus comentários sobre a competição para mais tarde, quando as coisas começarão a valer de verdade. Hoje, falarei daqueles que são a razão maior do futebol: os gols. Repararam como teve gol bonito nos jogos de ontem do Brasileirão?

O de Alemão, do Coritiba, foi um deles. No jogo contra o Corinthians, ele acertou um canudo da intermediária. No ângulo. Mas no ângulo mesmo, sem sobrar nem um cantinho. Mas não foi suficiente, pois o Corinthians virou a partida, com belos gols também. Rogério recebeu cruzamento e bateu de primeira, cobrindo o goleiro Fernando, e Gil chutou cruzado, decretando a segunda vitória seguida do Timão (o que merece destaque nesta época de magras vagas alvinegras).

Outro jogo que merece destaque foi Palmeiras x Juventude. Com três gols de Kahê e um de Corrêa à la Ronaldinho Gaúcho, o Palmeiras venceu por 4 a 1 e provou ter encontrado a peça de reposição para Vágner Love. E deu mostras que não está liderando o campeonato por acaso e que terá condições de lutar pelo título.

Mas o gol que mais chamou a atenção na rodada na verdade não existiu. Num lance que parece ter saído de vídeo game, o goleiro Jean, do Guarani, defendeu a bola que entrava devagar em sua meta. O detalhe é que ele estava fora do campo após ter feito uma defesa e socou a bola através da rede lateral. A bola não entrou, mas o juiz Edílson Soares da Silva marcou gol. O Cruzeiro ainda ampliou com Jussiê, que marcou um belíssimo gol de cabeça.

Lances como esses nos enchem de esperança para que continuemos a acompanhar o Brasileirão. O campeonato, que começou meio morno, está melhorando a cada rodada. Se todo dia for assim, a emoção estará garantida.

terça-feira, julho 06, 2004

A prima pobre


Como a Eurocopa terminou recentemente e a Copa América começa na noite de hoje, as comparações entre as duas copas continentais tornam-se inevitáveis. Muitos comentaristas esportivos afirmam, com certa dose de razão, que a Copa América nunca chegará ao nível da irmã européia. Mas por que esse abismo tão grande?

Primeiramente, é preciso frisar que as diferenças entre as duas competições são de várias naturezas. O aspecto técnico, por exemplo, é um deles. Na Europa, praticamente todas as 16 seleções tinham condições técnicas de lutar pelo título e a vitória da Grécia provou isto. Na Copa América, uma surpresa pode até acontecer. Mas será mais por desleixo das equipes tradicionais do que por méritos da zebra em potencial.

Aliás, o regulamento do torneio favorece este desinteresse por parte das “grandes” seleções. Com uma primeira fase com três grupos de quatro times, em que dois terceiros colocados se classificam, as coisas começam a ficar minimamente emocionantes somente a partir das quartas-de-final. Como se empenhar se, ao menos matematicamente, uma equipe pode se classificar com um mísero empate em três partidas?

Uma boa solução poderia ser a criação de uma competição que englobasse todos os países do continente americano e não somente as nações do sul. Atualmente, duas seleções participam do torneio como convidados, mas aí não há critérios técnicos que legitimem uma eventual vitória dos times das Américas Central e do Norte.

Talvez uma redução da competição para apenas oito equipes fizesse bem ao futebol do continente. Imaginem uma Copa América com dois grupos. No primeiro, por exemplo, estariam Brasil, Uruguai, Estados Unidos e Colômbia. No outro, Argentina, Paraguai, México e Chile. O campeonato seria muito mais interessante e as partidas seriam melhores, com todos os jogos valendo alguma coisa. Sem contar que os finalistas fariam uma partida a menos do que na atual fórmula, o que interessa bastante a essas equipes.

Claro que isso implicaria a realização de uma etapa classificatória, o que é realmente inviável para seleções como Brasil e Argentina, que já jogam competições demais. Então, a solução poderia ser reservar duas ou três (talvez até quatro) das vagas para as seleções mais bem colocadas no ranking da Fifa ou em algum outro sistema qualquer, como a colocação na Copa do Mundo anterior.

Ainda assim, existem outros aspectos nos quais a Copa América continuaria a ser a prima pobre da Eurocopa. Estádios menos modernos, menor interesse do público... são tantos que não caberiam neste texto. Mas soluções existem, ainda que complexas. Pois craques que nasceram do lado de cá do Atlântico existem até mais. Mas quem sabe um dia? Sonhar não custa nada.

domingo, julho 04, 2004

A zebra de Tróia


Como, no texto de hoje, não falar da surpreendente Grécia? Os guerreiros helênicos travaram hoje, contra o exército de Felipão, a batalha final da Euro 2004 e... saíram vencedores. Nem foi mais uma surpresa, uma vez que, de quem já chegou tão longe, pode se esperar tudo. Mesmo assim, não resisti em evocar, no título da coluna, o simpático eqüino que, depois das vitórias de Porto, Santo André e da própria Grécia, elegeu o azul e o branco como as cores da estação.

A final não foi nada brilhante do ponto de vista técnico, o que já era, de certa forma, esperado. Tanto pelo estilo de jogo das equipes envolvidas, quanto pela tensão inerente às grandes decisões. Um primeiro tempo equilibrado, em que o placar em branco foi justo, e um segundo tempo em que a seleção portuguesa jogou melhor, mas foi castigada por uma falha defensiva que levou ao gol grego.

Ainda assim, o resultado foi justo. Os portugueses levaram um gol semelhante aos que tiraram França e República Tcheca da Euro. Deveriam estar vacinados contra os cruzamentos gregos vindos da direita à procura de Charisteas (ainda que o gol nas semifinais tenha sido de Dellas). Como não se precaveram, deixaram escapar aquela que seria a maior vitória do futebol português.

A Grécia quebrou um tabu que se repetia de 20 em 20 anos. Em 64, a Espanha organizou a competição e se sagrou campeã. Em 84, a França repetiu o feito. Neste ano, a tradição jogava a favor de Portugal. Mas Charisteas não.

Ao fim da partida, com toda aquela festa, me lembrei da teoria que diz que os europeus valorizam o vice-campeonato, ao contrário dos sul-americanos. E pude comprovar a hipótese. Enquanto os torcedores lusitanos aplaudiram de pé sua seleção e os adversários, por aqui muitos torcedores do Flamengo consideraram a derrota para o Santo André a maior humilhação da história do clube. Deve ter tido jogador rubro-negro que se arrependeu de não ter sido eliminado nas semifinais. A derrota para o Vitória teria sido um resultado perfeitamente normal.

quinta-feira, julho 01, 2004

Era uma vez Flamengo


Antes de começar a escrever esta coluna, pensei que hoje eu deveria falar do Santo André e não do Flamengo. Afinal, os campeões merecem esse espaço, já que na grande mídia as manchetes dizem que o favoritíssimo Flamengo foi derrotado por um bando de Zé Manés que nem merecem ser citados. Para muitos, foi o Flamengo que perdeu e não o Santo André que ganhou. Mas as circunstâncias me obrigam a refletir sobre a partida de ontem como um todo.

Antes de a bola rolar, com o Maracanã quase lotado, Casagrande sentencia: “a torcida pode fazer a diferença hoje como há muito tempo não acontece”. Não duvido da boa fé de Casão (aliás, este parece ser seu único atributo como comentarista), mas ele quis dizer, nas entrelinhas, que o Ramalhão seria um time que tremeria nas bases.

Ora, quem tem bom senso e boa memória sabe que os jogadores do Santo André não começaram a jogar bola na semana passada. E quem não tem a memória tão forte pode fazer uma breve pesquisa e descobrir que a maioria dos jogadores do time do ABC já atuou por clubes “grandes”. Corinthians, Vitória, São Caetano, clubes do Japão, Portugal e Argentina, para ficar só entre os que lembro de cor. Mas sei que tem mais. De agora em diante, nenhum é tão grande quanto o Santo André.

Na verdade, a torcida que lotou o Maracanã tinha um ar de desesperada, pois sabia que se o clube do coração não levasse essa, o ano de 2004 estaria arruinado e acabaria contaminando os anos seguintes. Pois, como sabem, a bomba foi detonada ontem e nos resta esperar para ver quem se salvará pelos lados da Gávea.

O Flamengo tinha, sim, uma pequena vantagem por conta do empate em dois gols na casa do adversário. E só. Não era o favorito disparado como pintaram. Camisa não ganha jogo, ainda mais uma camisa que há tempos não recebe jogadores que a mereçam. Elenco por elenco, os paulistas tinham mais.

Os flamenguistas que me desculpem, mas o Santo André já havia deixado Atlético Mineiro, Guarani e Palmeiras pelo caminho que, talvez com exceção do Bugre, são equipes bem superiores ao Fla. Tudo bem que nem sempre o futebol tem lógica, mas seria bom que da próxima vez a imprensa fizesse seus prognósticos com mais carinho e cautela.

Agora, os destinos das duas equipes são antagônicos. O Santo André administrará uma posição intermediária na Série B, podendo, com alguma sorte, conquistar uma vaga na fase final da competição. Isso porque o time está na vice-lanterna não por merecimento, mas por conta de 12 pontos perdidos (ou surrupiados?) no tapetão. Porém, a cabeça já deve estar voltada para a Libertadores.

Para o Flamengo, começa hoje uma luta inglória para se livrar do rebaixamento. O futuro do Fla está cada vez menos rubro e mais negro. E é bom que providências comecem a ser tomadas logo. Ou então, era uma vez Flamengo...