Chora, Galo! Chegou a hora...
Queria muito ter ido ao estádio, mas seria demais para mim. Como vascaíno seria torturante assistir um jogo entre meu time do coração e um clube com o qual é impossível não simpatizar. Talvez seja mais do que simpatia, é verdade.Futebol para mim é paixão. Um esporte erguido pela massa, sustentado pela massa, que existe e permanece em função da massa. A massa é o povo, é o torcedor que vibra e canta a cada jogo, é o movimento que torce e faz torcer.
Sem torcida o futebol é sem graça, sem alma, parece meio deslocado no tempo, sem sentido. Nada mais estranho que assistir a um jogo de portões fechados, com o estádio vazio o futebol deixa de ser futebol.
Por isso, me entristece muito a queda de um clube como o Atlético. Sua torcida me surpreende a cada jogo, tem uma energia diferente, uma vibração fora do comum. Futebol é muito mais do que bons jogadores, uma boa comissão técnica e uma diretoria competente. Tudo isso passa, jogadores são vendidos, a comissão técnica sempre muda, os nomes da diretoria nunca permanecem. Os envolvidos com o espetáculo são todos profissionais, vão em busca de crescimento, melhores salários, se uma proposta melhor aparecer eles vão embora. A torcida não, ela fica. Ela não está, ela é, permanece desde o nascimento, fiel, sempre presente, seja em frente à TV ou na arquibancada do estádio.
O futebol não é frio, não é formado apenas por resultados. Sempre torço para o São Caetano cair e muitos não entendem. Mas eu sempre penso que de nada adianta uma boa administração se o Anacleto Campanela está sempre vazio. Administrar bem para quem, para a meia dúzia de torcedores da Bengala Azul.
O Atlético pode ter muitas dívidas, poucos títulos de expressão, mas é rico, muito rico. A massa que torce e sofre vai permanecer e é através dela que o clube sempre vai encontrar forças para se reerguer. Foi assim com o Fluminense, que levou mais de 50 mil pessoas ao Maracanã, em jogos da Terceira Divisão. Com o Palmeiras e o Botafogo, que voltaram mais fortes da Segundona, lotaram estádios, e hoje são melhor administrados. Com o Grêmio que subiu neste sábado, na raça, com o apoio de uma torcida ainda mais apaixonada.
Talvez a queda faça bem para o Galo. Em meio a grandes dificuldades ocorrem grandes mudanças, é do sofrimento que tiramos o substrato do amadurecimento. Quem sabe o sofrimento da queda nos presenteie com um Galo mais forte, realmente vingador. O choro dos torcedores no fim do jogo me emocionou e eu juro que a torcida do Galo, mais uma vez, me surpreendeu. Achei que eles iam brigar, bater, quebrar tudo. Mas vi cenas diferentes.
A torcida engoliu o choro e cantou. Da minha casa cheguei a ficar confuso, eu via uma coisa e ouvia outra, no meu computador eu lia que o time estava rebaixado, nos meus ouvidos o hino do Galo, a banda tocando e a torcida cantando.
Na saída do ônibus do time, nada de agressão. A torcida cercou a equipe e não protestou, cantou mais uma vez.
Eu ouvindo no rádio, os torcedores cantando o hino, os jovens jogadores chorando, até mesmo o repórter ficou emocionado. Confesso que meus olhos se encheram d'água.
Uma cena pra ficar na memória.
É por isso que eu amo futebol.








