domingo, maio 30, 2004

Uma prévia do clássico

Pegando carona no que disse nosso estimado amigo Enderson, assino embaixo da frase que diz que "a Eurocopa é uma Copa do Mundo sem Brasil e Argentina". E vou além. Para mim, a Eurocopa é uma competição mais difícil de se avançar, já que é pedreira desde a fase de grupos. Quando, numa Copa do Mundo, teremos Portugal, Espanha e Rússia no mesmo grupo? Nunca, já que o sorteio dirigido coloca sempre duas seleções européias por chave, no máximo.

Mas daí a dizer que é mais difícil ser campeão da Eurocopa do que da Copa do Mundo há uma grande diferença, pois a seleção européia aspirante ao título mundial terá fatalmente que enfrentar Brasil ou Argentina (talvez ambos) no seu tortuoso caminho. E esse confronto provavelmente será na final. Tem sido assim desde 86. Na verdade, foi assim sempre, apenas com algumas exceções.

É por essas e outras que o jogão da próxima quarta tem uma importância tão grande para o futebol mundial. Claro que é injusto dar a ele maior relevância do que a uma competição recheada de craques, mas o valor do clássico é algo próximo disso. Além de ser um assunto um pouco mais urgente.

Por isso, resolvi fazer uma prévia de como será a partida, onde cada aspecto do futebol atual contará um gol para a equipe que se sair melhor. Difícil explicar, mas tenho certeza de que vocês entenderão. Vamos lá, pontapé inicial!

O último confronto envolvendo times brasileiros e argentinos foi entre Boca e São Caetano. Jogo empatado, mas o Boca ganhou nos pênaltis. Gol chorado da Argentina.

Recapitulando o desempenho dos clubes destes dois países nas últimas competições sul-americanas e mundiais, veremos que o Boca venceu tudo que pôde. Além disso, nossos hermanos têm dois times nas semi-finais da Libertadores, contra apenas um nosso. Argentina, 2 a 0.

Porém, se analisarmos as competições entre seleções, os papéis se invertem. O Brasil é o atual campeão mundial e conta com mais quatro conquistas no currículo, contra apenas duas estrelinhas dos argentinos. Isso sem contar os títulos nas categorias de base, porque aí seria covardia. Golaço a nosso favor e 2 a 1 no placar.

E como não falar no desempenho dos craques dos dois países nesta temporada? Ronaldinho Gaúcho, Kaká e companhia brilharam. Enquanto isso, o argentino que mais teve destaque na mídia ultimamente foi o decadente Maradona. Gol de placa que vale o empate.

Mas partidas que terminam empatadas costumam ser um pouco frustrantes. Temos que dar um jeito de desempatar esta. Desculpem-me a patriotada descarada, mas vou buscar o desempate em outro campo. Ou melhor, nas quadras de saibro de Roland Garros.

Peço novas desculpas para mudar bruscamente de esporte, mas é que Guga está realmente fantástico nas quadras parisienses. À la Ronaldo, renasce das cinzas e dá provas de ser um tenista muito acima da média. Venceu o suíço Roger Federer, o atual número 1 do mundo, e já está nas oitavas, firme na luta pelo tetra. De quebra, ganhou o "Troféu Laranja", dado pela imprensa francesa ao tenista mais simpático da competição. Seu primo pobre, o "Troféu Limão", dado oficialmente ao tenista de temperamento mais forte (mas que, na prática, é o tenista mais "mala") foi para o argentino David Nalbadian.

Por isso tudo, Guga merece um gol. O gol que nos daria a vitória, de virada, por 3 a 2. Será que vamos ter tanta emoção assim?

sexta-feira, maio 28, 2004

O dia da caça (ou seria da pesca?)

Faz mais ou menos duas semanas que escrevi o texto "A vida vista da marca de cal", que exaltava o bom desempenho dos times brasileiros na Libertadores. Dos quatro times brasileiros que haviam chegado à fase de mata-mata, três se deram bem na primeira eliminatória, dois deles conquistando a vaga nos pênaltis.

Pois o tempo passou, as quartas-de-final chegaram e a sorte dos times se inverteu. Santos e São Caetano, que davam pinta de campeão, foram eliminados nesta semana. O São Paulo, que conquistou a vaga contra o Rosario Central com uma certa dose de sorte, desta vez passou com extrema facilidade pelo Deportivo Táchira. Coisas do futebol.

Com o título desta coluna, não quis sugerir que Boca e Once Caldas seriam duas presas fáceis para as equipes brasileiras. Quis dizer apenas que os brasileiros experimentaram o outro lado da moeda. Para Santos e São Caetano, o gosto de uma eliminação talvez prematura foi amargo. Para o tricolor paulista, foi dado o doce sabor de continuar a sonhar.

Quem assistiu às partidas desta semana, viu que os times não podem creditar seus destinos apenas à sorte. O São Caetano, por exemplo, jogou de igual para igual com o Boca Juniors, agora principal favorito à conquista do título. O fato da interdição de La Bombonera facilitou um pouco as coisas, mas não tira os méritos da equipe do ABC.

Porém, o Azulão abusou da sorte e perdeu alguns gols que poderiam ter decidido a partida a seu favor, ainda nos noventa minutos. Nos pênaltis, a displicência continuou, culminando com a cobrança de Marcelo Mattos, que chutou para os ares as pretensões do São Caetano.

O jogo do Santos não foi muito diferente. Não concordo com alguns comentaristas que disseram que o Santos foi melhor e que o resultado foi injusto. O jogo foi equilibrado, o Once Caldas soube se defender melhor e o gol poderia sair para qualquer dos dois lados. Mas a sorte sorriu para a equipe colombiana.

Já a partida do São Paulo foi um verdadeiro passeio. Tanto que dispensa mais comentários. Davi, desta vez, se curvou diante de um Golias mordido pelos maus tratos em terras venezuelanas.

A lição que pode ser tirada disso tudo é que priorizar uma competição da forma que fizeram Santos e São Caetano costuma ser uma aposta de altíssimo risco. Principalmente quando o campeonato priorizado pode desmoronar em apenas uma partida mal-jogada.

O Santos poupou titulares na última rodada do Brasileirão e foi goleado pelo Palmeiras. O São Caetano fez o mesmo e conseguiu ganhar, ainda que não esteja tão bem colocado no campeonato. O Cruzeiro, que saiu mais cedo da Libertadores e pode se dedicar exclusivamente ao campeonato nacional, jogou com time misto (mas contra sua vontade) e venceu o líder São Paulo.

No fim das contas, as três equipes foram eliminadas do torneio sul-americano, mas agora o Cruzeiro ocupa posição muito melhor que os adversários no Brasileirão. E quem vai dizer que foi injusto?

quarta-feira, maio 26, 2004

O jogo do desgosto

Vem crescendo, nos últimos dias, a expectativa em torno do clássico entre Brasil e Argentina, que ocorrerá no Mineirão daqui a exatamente uma semana. Em todo o Brasil, não há assunto mais comentado.

Pois em Belo Horizonte o jogo já começou há alguns meses e o assunto já está, digamos assim, saturado na capital mineira, tamanha a dor-de-cabeça que os preparativos têm causado.

Inicialmente, os ingressos mais baratos, nos setores atrás dos gols, custariam proibitivos R$ 60, o que causou a revolta dos torcedores de BH. Após intervenção do governador Aécio Neves, o preço dos ingressos da área menos nobre caiu pela metade, mas a arquibancada central e as cadeiras continuaram com preços entre R$ 100 e R$ 150.

Ainda assim, os ingressos se esgotaram na tarde de hoje, após muito tumulto nos pontos de venda. Atrasos, confusões, briga ferrenha por um lugar nas quilométricas filas. Tudo isso contribuiu para a insatisfação de muitos torcedores que voltaram para casa de mãos vazias. Muitos deles após passarem mais de 12 horas esperando por sua chance.

Como que prevendo que o esforço pelas entradas não valeria a pena, desisti de assistir a partida in loco já faz algum tempo. Apesar de uma ponta de ressentimento, hoje vejo que foi uma decisão sábia. Muitos colegas perderam seu dia nas filas e vão assistir ao jogo pela TV, assim como eu.

Ouvi de um amigo que essa era uma chance única e que outro Brasil e Argentina em Belo Horizonte só daqui a 40, 50 anos. É verdade. Mesmo assim, não me sinto arrependido. Esta partida já ficou meio maculada.

É claro que não deixarei de torcer pelo Brasil, ainda que seja pela televisão. Mesmo porque espero não ter que aguardar meio século para poder estar presente neste que chamam de "o maior Fla-Flu do mundo". Só que aí não vou poder comemorar quando for gol nem vestir a camisa amarela com um escudo de cinco estrelas no peito. Porque estarei usando uma camisa de botões com o distintivo de alguma emissora de rádio ou de TV. Sonhar ainda é de graça.

segunda-feira, maio 24, 2004

Somos os campeões, meu amigo

Com as partidas deste fim-de-semana, a temporada do futebol europeu praticamente terminou. Claro que ainda falta a azeitona da empada, a esperada final da Liga dos Campeões, que este ano será entre Monaco e Porto. Mas os principais campeonatos nacionais chegaram ao fim e nos deixaram um gostinho bom. Foi uma temporada excelente.

Na Inglaterra, o Arsenal foi campeão invicto, algo que não ocorria na ilha desde o longínquo ano de 1889, quando o hoje desconhecido Preston papou o título com um elenco recheado de escoceses. No Arsenal de hoje, os franceses são a base do time. Coincidência?

Falando em franceses, o Lyon se sagrou tricampeão nacional. Sem o brilho de uma campanha invicta, mas quem se importa? Os torcedores do Lyon são os únicos que podem se orgulhar de serem tricampeões em campeonatos importantes no Velho Mundo. E olha que até 2002 o clube nunca havia levantado o caneco.

No Campeonato Espanhol, a eficiente equipe do Valência desbancou os favoritos Real e Barça e conquistou o título pela segunda vez nos últimos três anos. E, de quebra, arrebatou a Copa da Uefa. Que galácticos que nada!

Em solo alemão, o título ficou com o Werder Bremen. Com o campeonato assegurado com duas rodadas de antecedência, o time perdeu feio seus últimos compromissos. O chope alemão é muito bom, mas dá uma ressaca...

Façamos uma escala na terra da pizza, onde o Milan foi campeão. Sem o scudetto desde a temporada 98/99, os rubro-negros puderam, finalmente, soltar o grito de "é campeão!". O time é, de longe, o melhor e o mais eficiente da Europa. Tudo bem que saiu da Liga dos Campeões perdendo por vexatórios 4 a 0 para o La Coruña, mas isso é coisa do futebol. Que não apaga o brilho da equipe milanesa.

Fechando a lista, aparece o Porto, campeão português. Na euforia da conquista, os jogadores do time lançaram moda ao jogarem a partida seguinte à conquista do título com os rostos pintados de azul e branco, as cores do clube. Moda de gosto duvidoso, é verdade.

O Porto pode conquistar ainda a cobiçada Liga dos Campeões, na próxima quarta, jogando contra o Monaco. E entrará em campo disposto a manter um interessante tabu: no elenco de todos os campeões já citados, havia jogador brasileiro. No Werder Bremen, por exemplo, joga Aílton, artilheiro da Bundesliga. Já o Milan tem em seu plantel quatro brasileiros: Dida, Cafu, Serginho e Kaká.

Ou seja: de alguma maneira, o talento brasileiro está sempre presente.

sábado, maio 22, 2004

Pra não dizer que não falei do Tássio

Como a última moda tem sido exaltar os santos do nosso futebol, hoje vou falar mais um pouco destes times que fazem deste um esporte sagrado. Mas só um pouquinho, que é para o assunto não ficar profano.

No jardim do Éden continua a equipe do São Paulo. Bem no Brasileirão e na Libertadores, não há santo em situação tão confortável. Porém, o jogo de amanhã é contra a estrelada equipe do Cruzeiro. E uma derrota no jogo dos céus pode fazer o São Paulo descer alguns degraus na hierarquia divina.

O São Caetano é o santo que se encontra no purgatório. Está no meio da tabela no Campeonato Brasileiro e continua firme na Libertadores, apesar de ter pela frente o Boca, no inferno que é La Bombonera lotada torcendo contra.

Mas o santo que foi considerado o "Funcionário do Mês" pelo Criador foi Santo André. Com toda sua humildade, vem surpreendendo aqueles de pouca fé e já está nas semifinais da Copa do Brasil. E terá pela frente um adversário bem menos endiabrado que os argentinos, o XV de Campo Bom.

E, para fazer a justiça divina, essa coluna não poderia deixar de falar do herói da semana, o atacante Tássio, xará de um dos nossos leitores mais ilustres. O jogador do Santo André foi o bravo soldado que, vindo do banco, deu a vitória ao time do ABC na guerra santa contra o Palmeiras, marcando aos 45 do segundo tempo. Amém!

Entramos em campo

Saindo do inferno da zona de rebaixamento, o Atlético Mineiro chegou à primeira vitória no Brasileirão, contra o Coritiba. O gol foi marcado pelo zagueiro Gaúcho, de falta, com ajuda do montinho artilheiro.

quinta-feira, maio 20, 2004

Traje a rigor

Na tarde de hoje, a Fifa fez sua festinha de aniversário de 100 anos, muito bem vividos. Para animar a recepção, foram convidadas as seleções de Brasil e França. Jogão, diriam alguns. O jogo do ano, exagerariam outros.

Confesso que não guardava grandes expectativas em relação a esta partida. Para mim, amistoso é sempre amistoso. Pode ser entre o time do céu e o time do inferno. Não que seja uma partida sempre cordial, como a etimologia pode sugerir. O problema é que as partidas amistosas não levam a nada e, com isso, é difícil manter a motivação.

Foi justamente motivação que faltou aos jogadores das duas seleções na tarde de hoje. E, sejamos sinceros, o jogo foi ruim. Mas para tudo tem uma explicação. Que jogador francês colocaria sua canela em risco às vésperas da Eurocopa? E que craque brasileiro entraria numa dividida para ficar de fora do jogo contra a Argentina?

O resultado não poderia ser outro: um primeiro tempo extremamente fraco, apesar de charmoso devido aos uniformes. Uma partida com muito meio-campo e pouca conclusão. Será que o cinto dos franceses estava apertando?

No segundo tempo os franceses tiraram os cintos, o jogo melhorou, mas não o suficiente para ser classificado como bom. Passou a ser mais aberto, mas nada que evitasse os bocejos. Placar final: zero a zero, fora a preguiça.

Durante a partida, me peguei pensando: por que Brasil e França? Tudo bem, são as duas melhores seleções da atualidade, campeãs das últimas Copas, mas a festa não era de 100 anos? No quesito tradição, a França não é páreo para Itália ou Alemanha, por exemplo. Seria muito mais interessante um Brasil contra Itália, um duelo entre o ataque mais envolvente contra a defesa mais eficiente do último século.

Ou até quem sabe uma partida entre Hungria e Brasil, que marcaria o confronto entre a melhor seleção na primeira metade de vida da Fifa contra a que deu as cartas na segunda metade. Mas, pensando bem, esta foi a partida de três semanas atrás. E foi bem melhor, diga-se de passagem.

terça-feira, maio 18, 2004

E o Mengão, hein?

Na semana passada, falamos bastante dos times que estão na Libertadores. Também pudera. Além de irem bem na competição sul-americana, São Paulo, Santos e São Caetano são, juntamente com o Cruzeiro, os melhores times do país na atualidade. Não necessariamente nesta ordem.

Como o Cruzeiro deu adeus à competição e Santos e São Caetano não repetem - ainda - no Brasileirão a boa campanha na Libertadores, decidi hoje dedicar o espaço aos que estão no fundo da tabela.

Atlético Mineiro, Botafogo, Flamengo e Paysandu são os quatro times que atualmente habitam a zona de rebaixamento. Justificar as campanhas de Botafogo e Paysandu é relativamente fácil. Elencos fracos, clubes pouco estruturados e um pouco de azar são apenas algumas das razões.

Falar sobre o Atlético Mineiro, por outro lado, é extremamente difícil. Se os jogadores não chegam a ser Ronaldinhos, também não estão entre os piores. O problema é que o clube não vem jogando mal, mas está lá embaixo por conta de inúmeros empates. Talvez a Sra. Fleury consiga detectar o problema melhor que eu.

Entre os quatro últimos, o Flamengo parece ser o que menos merece a posição que ocupa. Isso se considerarmos apenas o elenco, que conta com bons jogadores, como Roger, Fabiano Eller, Zinho, Felipe e Jean.

Mas o buraco, no caso do Flamengo, é mais embaixo. Jogar quase todos os jogos em Volta Redonda é, no mínimo, meio estranho. E, é claro, prejudica o desempenho da equipe. Não sou daqueles que acreditam que o apoio da torcida é fundamental, mas jogar no Maracanã faz diferença, por inúmeros motivos.

Essa foi uma das reclamações de Felipe nas entrevistas que deu esta semana. Disse também que os salários dos jogadores estão atrasados, o que também atrapalha muito. E, é claro, uma coisa está ligada à outra: o Flamengo está recebendo R$ 100 mil por partida jogada em Volta Redonda, pagos pela prefeitura local.

Se formos analisar todos os problemas do time a fundo, veremos que uma coisa leva à outra. E tudo junto pode levar o Flamengo à segunda divisão.

domingo, maio 16, 2004

Os donos das Copas

Se repararmos bem, veremos que todas as Copas do Mundo, e em especial as mais recentes, têm seus donos. O dono de uma Copa não é necessariamente o artilheiro, mas aquele que marcou em momentos cruciais e levou a sua seleção a conquistar o cobiçado caneco.

A Copa de 2002 foi a de Ronaldo, o Fenômeno, que fez de tudo, incluindo gol de bico, do início ao fim do torneio e mostrou para o mundo que ele não estava acabado, como muitos poderiam pensar. Foi um momento tão especial que ele apareceu com um corte de cabelo ridículo no meio da competição e ninguém ligou.

Em 98, o dono da Copa foi Zidane. Depois dos gols na final contra o Brasil, o francês foi alçado, com justiça, ao status de melhor jogador do mundo. A trajetória de Zidane no Mundial de 98 foi curiosa: expulso no primeiro jogo da seleção francesa, só voltou a campo na fase eliminatória. E, na final, marcou o primeiro gol de cabeça da sua carreira. E também o segundo.

Na já distante Copa de 94, quem deu as cartas foi Romário. Tudo bem que as imagens que ficam na nossa memória são a de Taffarel defendendo a cobrança do italiano Massaro e a de Baggio mandando sua cobrança pro espaço. Mas o baixinho foi vital para a conquista do tetra, marcando gols importantes, tirando o corpo para que outros pudessem marcar seus tentos e subindo mais que grandalhões suecos para colocar, de cabeça, o Brasil na final.

Porém, apesar de alguns, como Romário, relutarem em admitir, o tempo passa para todos. Em 98, ele ficou de fora da Copa por lesão. Em 2002, não foi porque Felipão foi lúcido o suficiente para perceber que não seria bom negócio levá-lo, apesar de toda a pressão.

Quem fez o lobby pró-Romário deve achar, hoje, que estava meio louco na ocasião. Ou, então, que tinha compaixão por um herói que já sentia os efeitos da idade. Essa é a compaixão que hoje tenho ao ver Romário jogar. Atualmente, me causa um certo mal-estar ver manchetes como "Baixinho marca - de pênalti - e Flu empata". Muito pouco para quem já foi o dono do mundo.

Claro que não são todos que concordarão comigo. Quem foi rei nunca perde a majestade, dirão alguns. Mas acho que é hora de Romário parar, para o bem dele e do futebol, que nunca irá esquecê-lo. E, falando francamente, quem acha que Romário ainda é um craque deve abrir uma igreja para cultuá-lo. Assim como fizeram na Argentina, para aquele que foi o dono da Copa de 86.

sexta-feira, maio 14, 2004

A vida vista da marca de cal

A disputa de pênaltis - fórmula um tanto quanto injusta, mas inevitável, de se definir um vencedor quando todos os outros expedientes terminam em empate - costuma fazer a alegria de quem gosta de emoções fortes. Isto, é claro, quando o time do coração não está envolvido na disputa, porque aí já é emoção em excesso.

Pois das quatro equipes brasileiras sobreviventes na Libertadores até as oitavas-de-final, três tiveram que passar pela angustiante disputa. E provaram, para quem ainda tinha alguma dúvida, que pênalti não é loteria.

Por outro lado, se no futebol nem sempre o melhor time vence, nos pênaltis isto é ainda mais verdade. Nas penalidades, ganha quem tem mais nervos de aço, além da preparação adequada. A sorte vale, mas só como tempero.

E no quesito nervos no lugar, os brasileiros mostraram estar bem. Depois de uma partida muito emocionante contra a LDU de Quito, o Santos foi extremamente competente, convertendo todas as suas penalidades. Deu pinta de campeão, ainda que exista um longo caminho pela frente, com Boca, São Caetano e outros bons times a serem batidos.

O São Paulo quase se complicou no jogo do Morumbi contra o Rosario Central. Mas, nas cobranças de pênaltis, o tricolor teve, além de competência e sorte, um goleiro trapalhão como adversário, que facilitou muito as coisas.

O Cruzeiro não foi tão afortunado. Num jogo muito semelhante ao do São Paulo, no qual jogava em casa, começou perdendo e virou a partida, o time celeste deu aos torcedores a sensação de deja vú. Só que, na hora da disputa da marca de cal, o time conseguiu errar todas as cobranças. Aí ficou difícil. E foi-se embora o sonho de termos uma Libertadores totalmente brasileira a partir das semifinais.

Nesta história toda, méritos para o São Caetano, que tinha o jogo mais difícil dentre os brasileiros e conseguiu se classificar sem o desgaste das penalidades. Também tem pose de campeão, apesar de Santos e Boca Juniors.

Agora, nas quartas-de-final, as coisas ficam mais difíceis e é hora de separar os homens dos meninos. E tomara que os times brasileiros estejam no primeiro grupo. Ainda que seja através dos pênaltis.

quarta-feira, maio 12, 2004

A guerra das baboseiras

Quem tem TV por assinatura e um bocado de insônia pôde ver, na íntegra, uma cena bizarra na madrugada de ontem para hoje. Uma torcida que brigava sabe-se lá com quem, um time que se exaltava sabe-se lá com o quê e um narrador com um comentarista que falavam com base sabe-se lá em quê.

Me refiro, é claro, aos ocorridos que se viram após o duelo entre América do México e São Caetano, que terminou num empate, classificando a equipe brasileira. O que se viu após o 1 a 1 seria trágico, se não fosse cômico. A torcida do time mexicano invadiu o campo para agredir os jogadores do Azulão. Como não obtiveram muito êxito, partiram para cima da polícia. Patético.

Mas o festival da bobagem ficou por conta da equipe do SporTV. Chegaram a dizer que temiam uma tragédia. Que exagero! Tirando o fato de surgirem misteriosos carrinhos de mão na torcida do América, o showzinho serviu mais para borbulhar os hormônios adolescentes dos torcedores do que propriamente causar algum alarde.

Claro que a polícia local demorou para agir, o que poderia complicar as coisas se estivéssemos lidando com bandidos profissionais. Não era o caso. A não ser que as câmeras do SporTV tenham esquecido de mostrar alguma coisa, o que eu não acredito.

Mas o principal equívoco da emissora foi generalizar, falando coisas como "o México é um povo pacífico, que não é dessas coisas" ou "os times mexicanos são convidados para participar da Libertadores e fazem coisas assim". É como culpar o time do Paysandu por uma suposta selvageria feita pela torcida do Grêmio.

Obviamente, não aprovo a atitude dos torcedores do América. Mas acho que teve certa "tempestade em copo d'água". Claro que deve haver algum tipo de punição à equipe mexicana. E deve-se ter cuidado com a violência de equipes eliminadas que, teoricamente, não têm muito mais a perder. No final das contas, tudo deve ser encarado como um alerta. Nada além disso.

segunda-feira, maio 10, 2004

A Copa que nunca existiu

Uma das coisas que gosto de fazer é imaginar como a história poderia ter sido diferente se algo bem pequeno tivesse acontecido de outra forma. Claro que na vida e, ainda mais, no futebol, o "se" não entra em campo. E, assim, os devaneios se tornam coisas únicas, algo que só existe na mente de cada um.

Às vezes penso que, se os gols fossem apenas 10 centímetros maiores para cada lado, todos os chutes que carimbaram as traves seriam golaços, bem no cantinho. Mas isso todo mundo já pensou um dia, o que faz com que a fantasia perca o seu quê de única.

Mês passado fizeram 10 anos da morte do craque Denner, do Vasco, aquele que falava que um drible valia muito mais que um gol. E, de tempos em tempos, eu imagino como teria sido a história com ele como personagem.

Final da Copa de 98. Ronaldinho, o fenômeno, dá piripaque e não pode entrar em campo. Na relação, Denner está escalado como titular. Depois, a comissão técnica resolve voltar atrás. Denner não aceita, bate o pé e consegue começar jogando.

Primeiro tempo, Zidane sobe mais que a zaga brasileira e marca 1 a 0 para os franceses. O torcedor brasileiro sente um frio na espinha. O time não corresponde. O Brasil vai para o intervalo em desvantagem. Denner teve atuação apagada na primeira etapa.


O Brasil volta cabisbaixo. Mas, logo no início do segundo tempo, Denner pega a bola, disposto a decidir. Passa por um, por dois, põe a bola por baixo das pernas de Zidane e toca na saída de Barthez. 1 a 1.

Embalado pela jogada de mestre, o time passa a atacar mais. Tenta várias vezes, mas esbarra nas mãos seguras do goleiro francês. Até que, num contra-ataque do time de azul, a bola sobra para Petit, que fica mano-a-mano com Taffarel.

Só que Petit quer descontar o drible humilhante que seu colega Zidane havia sofrido. Espera Denner se aproximar e tenta passar pelo lado. Mas Denner, mestre do drible, sabia também como não ser deixado para trás. Toma-lhe a bola e lança. Lança longo, 50 metros. Não era sua especialidade, mas era seu dia. A bola cai majestosamente nos pés de Leonardo, que enche o pé e decreta a virada.

Final de jogo, Brasil pentacampeão. Leonardo, capitão da seleção com a contusão de Dunga no jogo contra a Holanda, enche o peito e ergue a taça. Ao seu lado, Denner, o outro herói do título, sorri. Leonardo sabe que, se não fosse Denner, ele seria lembrado não pelo tento que marcou, mas por não ter conseguido marcar Zidane no gol francês. E, então, passa o troféu para que Denner possa abraçá-lo.

Uma cena que nunca existiu, mas que viverá para sempre em minha mente. E somente ali.

sábado, maio 08, 2004

Leão

O assunto deste início de fim-de-semana tem sido um só, e com tanta intensidade, que dispensa um título maior para descrevê-lo. Aconteceu. O Leão deixou o Santos. E eu me peguei discordando de quase tudo que andaram dizendo por aí.

Alguns veículos de comunicação julgaram a demissão de Leão precipitada, pois, segundo estes, ainda havia clima para que ele continuasse na Vila. Ora, foi Leão que se demitiu. Tudo bem que a diretoria santista não queria pagar a multa rescisória e, por isso, estava apertando o cinto. Mas, de qualquer forma, o técnico não esperou a situação ficar completamente insustentável, pois assim saiu com prestígio. Além da vaidade habitual, Leão foi inteligente desta vez.

Os mesmos veículos apontaram as semifinais do Paulistão, contra o São Caetano, como o começo do desandar da maionese. Não concordo. Para mim, o bicho começou a pegar, de verdade, quando dispensaram do time, sem conhecimento do felino, Doni e Róbson. Sem entrar no mérito da qualidade dos dois atletas, ser o último a saber costuma ser muito desagradável. Costuma ser o começo do fim.

Falando em "último a saber", andaram comparando por aí a relação de técnico de um time com a de marido e mulher. Que leviandade! Ou nunca foram técnicos ou nunca foram maridos. Que casal tem tantos filhos, todos vestidos com a mesma roupinha? Que técnico já celebrou Bodas de Prata? Seria Leão ou seu cônjuge que lavava roupa e fazia o almoço? Que relação matrimonial se sustenta sem um "eu te amo", nem que seja de vez em quando? Quando o Leão levou o Peixe pra jantar pela última vez?

Viram? Casamento e futebol não têm muito a ver. Ainda mais se pensarmos que apenas dois dias depois, o Santos já está casado de novo, desta vez com Luxemburgo. Esse Peixe não perde tempo mesmo...

quinta-feira, maio 06, 2004

Baile sem máscaras

Quem acompanhou a rodada de ontem da Copa do Brasil não conseguiu deixar de reparar na máscara do mascarado Roger, do Fluminense. Ou, se preferirem, na proteção do protegido Roger.

Foi o técnico do Flu, Ricardo Gomes, que pediu para que o artefato não fosse chamado de máscara, temendo piadinhas como a que abriu esta coluna. Nestas horas, é inevitável lembrar de um dos conselhos de minha saudosa vovó: "quem não deve, não teme".

A verdade é que Roger realmente tem se tornado, cada vez mais, um jogador que aparenta achar que joga mais do que realmente o faz. Seria o tempo no exterior ou seria a Galisteu? Ontem, por exemplo, ele fez um primeiro tempo muito ruim com a tal máscara protetora. No segundo tempo, alegando desconforto, o jogador tirou a proteção, mas não a "máscara". Continuou apagadíssimo em campo. O resultado? Grêmio 4, Fluminense 1, fora o baile... sem máscaras!

Claro que o meia tricolor não é o campeão no quesito. Ele só teve o azar de deixar, "na cara", o fato. E antes que pensem que é intriga, pensem: nunca vi Edgar Davids ser chamado de mascarado, apesar de seu estilo zorro. Petkovic, de outro lado, usou protetor uma vez e tornou-se um mascarado inesquecível. Gilberto Silva, um exemplo extremo, poderia usar uma máscara de homem-aranha pelo resto da vida que não merecia o apelido, tamanha sua humildade. Mas que ficaria engraçado, ficaria...

terça-feira, maio 04, 2004

Salvem seus pontinhos

Os dirigentes da CBF devem ser mesmo uns desocupados. Caso contrário, não brincariam de Deus com tanta freqüência. Ano passado, as vítimas foram Paysandu e Ponte Preta, que perderam pontos no tapetão. Este ano, a primeira vítima foi o Coritiba.

O motivo é sempre o mesmo: jogadores irregulares. Recuso-me a acreditar que os próprios clubes ajam de má-fé, escalando esses jogadores. Assim, a culpa por essa lambança só pode ser... da própria CBF!

Ano passado, os pontos perdidos iam para o adversário contra qual o jogador "irregular" atuou. Este ano, o clube perde seis pontos por partida. Uma queda maior. Mas, pelo menos, os pontos não vão para ninguém.

No campeonato passado, as vítimas foram mal escolhidas: Paysandu e Ponte ficaram pelo meio da tabela e os clubes beneficiados com os pontos também não lucraram tanto assim. Quem se classificou para alguma copa sul-americana, o faria mesmo sem os pontinhos.

Nesta temporada, eu acredito que o Coritiba vá se salvar até com relativa facilidade, pois tem um bom elenco. O que pode complicar para o Coxa é que os pontos perdidos podem fazer falta na hora de brigar por uma vaga na Copa Sul-Americana ou, ainda, na Libertadores.

Mas em situação bem pior que o Coritiba pode ficar o Atlético Paranaense, seu principal rival. É que o clube pode perder não seis, mas 24 pontos pela escalação, supostamente "irregular", do goleiro Diego. Assim, o clube ficaria com risíveis -20 pontos na competição.

Seria uma marcação contra times paranaenses? Será que teremos Atletiba na segunda divisão? Nesta história toda, os paranistas é que deve estar rindo à toa. Mas o Paraná Clube deve ficar de olhos bem abertos, pois pode, assim como qualquer outra equipe, ser a próxima vítima dos caprichos da CBF.

domingo, maio 02, 2004

A rodada em cores

Dentre os milhares de fatores que fazem do futebol um esporte tão apaixonante, hoje resolvi falar de dois: as cores dos "mantos sagrados" e as coincidências que vez ou outra aparecem para deixar o torcedor com a pulga atrás da orelha.

Falar das cores é contar muito da história de um clube. O Grêmio, por exemplo, se recusou a usar o vermelho do patrocinador na camisa tricolor. E não era um patrocinador qualquer: era a poderosa Coca-Cola. Mas o motivo também não era menor, pois a cor rubra é o símbolo do arqui-rival Inter. Na queda-de-braço, adivinhem quem ganhou? A logo do refrigerante virou preta e branca na camisa da equipe gremista.

Hoje, a história soa quase banal. Mas o Grêmio foi o primeiro time a peitar um patrocinador por causa de uma cor. Mas não existem apenas exemplos nacionais. O Barcelona, uma das principais equipes do futebol mundial, tem histórias ainda mais interessantes neste aspecto.

Pelos idos de 1899, o estilista suíço Hans Gamber foi designado para desenhar a camisa do clube catalão e, na oportunidade, possuía em seu ateliê apenas dois lápis: um azul e outro grená. A combinação atípica agradou os dirigentes do clube e é hoje um dos motivos de orgulho da torcida do Barça. Além disso, o Barcelona é a única equipe do seu porte que nunca estampou patrocínios em seu uniforme. Não é comprovado, mas é bem possível que tais fatos estejam ligados. Mais amor à camisa, impossível.

Mas, voltando ao futebol brasileiro, um fato tão improvável quanto irrelevante para quem não dá importância às coincidências me chamou a atenção. Confesso que sou um dos céticos, mas não quis guardar a atenção para o ocorrido apenas para mim.

O que aconteceu neste fim-de-semana foi que todos os clubes que jogam de camisas "coloridas" venceram seus jogos contra equipes alvinegras. Alguns dirão que o preto e o branco podem ser todas as cores juntas ou nenhuma delas. Mas desconsiderei o detalhe, com fins estatísticos.

Na sábado, o Botafogo perdeu para o Criciúma. Hoje, Corinthians, Santos, Vasco e o ex-líder Figueirense também foram derrotados. No Atletiba, onde cada uma das cores joga em um time, o resultado não poderia ser outro senão um empate.

A exceção à regra fica por conta da partida entre Atlético Mineiro e Ponte Preta. Mas como ambos os times são alvinegros, a vitória da Ponte não chega a tirar a notabilidade do acontecimento. Ou seria melhor um empate?

Pele vermelha

Na contramão das atitudes de Grêmio e Barcelona, o time do Guarani hoje atuou conta o São Paulo, num dos jogos que fecharam a rodada, com camisas rubi em homenagem justamente ao... seu patrocinador! Castigo ou não, o Bugre perdeu de virada, por 3 a 2, com gol do zagueiro Fabão aos 44 do segundo tempo. Só para constar, o São Paulo seria alvinegro se não fosse uma listra - vermelha - na camisa do time.