segunda-feira, maio 10, 2004

A Copa que nunca existiu

Uma das coisas que gosto de fazer é imaginar como a história poderia ter sido diferente se algo bem pequeno tivesse acontecido de outra forma. Claro que na vida e, ainda mais, no futebol, o "se" não entra em campo. E, assim, os devaneios se tornam coisas únicas, algo que só existe na mente de cada um.

Às vezes penso que, se os gols fossem apenas 10 centímetros maiores para cada lado, todos os chutes que carimbaram as traves seriam golaços, bem no cantinho. Mas isso todo mundo já pensou um dia, o que faz com que a fantasia perca o seu quê de única.

Mês passado fizeram 10 anos da morte do craque Denner, do Vasco, aquele que falava que um drible valia muito mais que um gol. E, de tempos em tempos, eu imagino como teria sido a história com ele como personagem.

Final da Copa de 98. Ronaldinho, o fenômeno, dá piripaque e não pode entrar em campo. Na relação, Denner está escalado como titular. Depois, a comissão técnica resolve voltar atrás. Denner não aceita, bate o pé e consegue começar jogando.

Primeiro tempo, Zidane sobe mais que a zaga brasileira e marca 1 a 0 para os franceses. O torcedor brasileiro sente um frio na espinha. O time não corresponde. O Brasil vai para o intervalo em desvantagem. Denner teve atuação apagada na primeira etapa.


O Brasil volta cabisbaixo. Mas, logo no início do segundo tempo, Denner pega a bola, disposto a decidir. Passa por um, por dois, põe a bola por baixo das pernas de Zidane e toca na saída de Barthez. 1 a 1.

Embalado pela jogada de mestre, o time passa a atacar mais. Tenta várias vezes, mas esbarra nas mãos seguras do goleiro francês. Até que, num contra-ataque do time de azul, a bola sobra para Petit, que fica mano-a-mano com Taffarel.

Só que Petit quer descontar o drible humilhante que seu colega Zidane havia sofrido. Espera Denner se aproximar e tenta passar pelo lado. Mas Denner, mestre do drible, sabia também como não ser deixado para trás. Toma-lhe a bola e lança. Lança longo, 50 metros. Não era sua especialidade, mas era seu dia. A bola cai majestosamente nos pés de Leonardo, que enche o pé e decreta a virada.

Final de jogo, Brasil pentacampeão. Leonardo, capitão da seleção com a contusão de Dunga no jogo contra a Holanda, enche o peito e ergue a taça. Ao seu lado, Denner, o outro herói do título, sorri. Leonardo sabe que, se não fosse Denner, ele seria lembrado não pelo tento que marcou, mas por não ter conseguido marcar Zidane no gol francês. E, então, passa o troféu para que Denner possa abraçá-lo.

Uma cena que nunca existiu, mas que viverá para sempre em minha mente. E somente ali.

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