Os pés pelas mãos
Foi entre as décadas de 70 e 80 que o futebol-arte morreu. Sim, vocês podem não ter percebido, mas o futebol alegre ficou gravemente ferido com a derrocada do carrossel holandês e veio a falecer com o fracasso da nossa seleção frente à italiana, em 82, na tragédia do Sarriá.
O que vemos hoje, então, nos pés de Ronaldinho Gaúcho, Robinho e Zidane, entre outros poucos, são mensagens psicografadas do querido e saudoso futebol moleque. Sua alma viverá para sempre em nossos corações.
Mas o futebol atual também tem seu charme. Pode não ter lances com a grife de Pelé e Maradona (este último já um médium da bola), mas tem ares de guerra, sendo cada vez mais um esporte físico e tático. Uma guerra pacífica, na maioria das vezes. Com soldados desarmados (vez ou outra eles se armam, é verdade) e generais discípulos de Sun Tsu, estejam eles de terno ou de abrigo.
Com o passar do tempo, o esporte foi, cada vez mais, ganhando defensores e perdendo atacantes. O futebol moderno fixou o 4-4-2 e o 3-5-2 como esquemas táticos ideais. Eles são hoje os mais difundidos e, embora uma partida possa terminar com os times jogando num 2-7-1 contra um 1-2-1-2-1-2-1, as formações iniciais quase nunca fogem aos tradicionais esquemas.
O duro é perceber que não só no futebol, mas como em vários esportes similares, a defesa é realmente mais crucial que o ataque. Primeiro você arruma sua cozinha, trata de evitar os pontos adversários para, aí sim, tentar marcar seus tentos. É um raciocínio mais do que óbvio, porém muitas vezes os torcedores se esquecem dele, na ânsia de gritar gol. Na guerra, a filosofia também vale. E como seria bom se todos só pensassem em se defender e nunca, mas nunca mesmo, resolvessem atacar.
Só que, no futebol, recuar ao máximo é convidar a bola para beijar o barbante. Às vezes, por capricho, ela reluta em entrar e fica apenas zanzando pelo quintal da equipe atacada. Mas a redonda tem personalidade forte e, na maioria das vezes, ela entra sorrateiramente na meta da equipe que fica se defendendo demais. Vide o último jogo da seleção brasileira.
Na verdade, a bola foi casada com o futebol-arte e ainda o ama muito. E castiga todos aqueles que teimam em não respeitar sua memória.







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