quarta-feira, junho 02, 2004

Pelo caminho da paixão

Belo Horizonte acordou vestida de verde e amarelo na manhã de hoje. Seria muito clichê dizer isto, se não fosse a mais pura verdade. Boa parte dos belorizontinos amanheceram no clima do jogo de hoje e a cidade está bem bonita. Claro que não é nada comparável à mobilização que existe em época de Copas do Mundo. Mas nas Copas, o Brasil joga sete vezes (quando tudo dá certo) e hoje será apenas uma única partida. Comparativamente, a euforia para o jogo de hoje foi muito maior.

Eu acordei vestido de pijama, mais cedo do que pretendia e com vontade de dormir mais. Também seria clichê dizer isto, mas também é verdade. Porém, desde o despertar, sabia que seria um dia longo devido à expectativa e, ao mesmo tempo, curto para fazer tudo o que iria desejar, já que a porção noturna das próximas 24 horas seria dedicada ao jogo de logo mais. Como, mais tarde, fiquei sabendo que meu amigo Enderson estava ainda mais atarefado que eu, sobrou para mim escrever o texto de hoje, o que eu descobri, com o passar do dia, que seria um prazer.

Estava eufórico não só por causa do duelo, mas também por outros motivos. Pouca gente por aqui sabe, mas hoje se comemora a Proclamação da República da Itália. Para maioria dos brasileiros, uma data qualquer. Mas, para mim, uma data muito especial. Resolvemos, eu e alguns outros filhos de filhos de filhos da "bota", juntar a fome à vontade de comer macarrão e combinamos nos reunir com as duas finalidades: comemorar o Dia da Itália e a vitória do Brasil.

Ao sair de casa, ainda bem cedo rumo à universidade, minha alegria se misturou à da cidade. Logo perto de minha casa, está o hotel onde está hospedada a delegação argentina. Passando por lá, resolvi observar em volta e ver o que Marcelo Bielsa veria se resolvesse dar uma olhadinha pela janela. De um lado, uma churrascaria toda enfeitada com balões nas cores de nosso país. Do outro, um imenso outdoor com quatro homens vestido a camisa amarela. Um cenário não muito acolhedor para os argentinos.

Chegando na UFMG, vi uma cena no mínimo curiosa: dois sujeitos, aparentando ter seus vinte e muitos anos, jogavam bola num terreno totalmente inadequado para a prática do futebol. Pensei se essa ânsia toda pela bola tinha algo a ver com o jogo de hoje e não cheguei a conclusões definitivas. Melhor assim, fiquei com uma dúvida confortável.

Daí pensei numa coisa que muitos reclamam, principalmente aqueles que não gostam muito do futebol: "só o futebol dá ao brasileiro o orgulho de nascer aqui. Em outras situações, costuma ocorrer o inverso". Então pensei que, quando as pessoas se vestem de amarelo, estão externando sua paixão não tanto pelo país, mas pelo jogo.

Agora, após escrever estas linhas, rumarei para o local onde vou assistir à partida. Por coincidência, será na casa de um amigo que mora bem perto do Mineirão. Se chegarmos à esquina, dará para ver o palco do clássico. Se ficarmos parado, ainda assim, poderemos ouvir os gritos quando for gol do Brasil.

Muitos poderiam achar que eu vivi hoje tudo o que um torcedor do Brasil pode querer, menos o principal: viver a expectativa da partida, mas não ir ao jogo. Vou discordar. Hoje foi um dia muito bom e é até melhor que eu não vá mesmo ao Mineirão, sob risco do dia perder o encanto, por vários motivos que os freqüentadores de estádios sabem bem. Hoje, vou dormir com uma certeza: eu percorri o caminho da paixão pelo futebol.

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