sábado, setembro 17, 2005

A primeira vez a gente nunca esquece

Dizem que o primeiro beijo a gente nunca esquece. A primeira transa também não. Mesmo que ocorra alguma tentativa deliberada de suprimir aqueles momentos, eles ficam, resistem. Afinal, foi o novo que se apresentou, algo que nunca foi experimentado e que, de repente, vira regra, necessidade da existência. É como a história da “virgenzinha” que depois da primeira vez não consegue mais parar...

Na minha opinião, outra estréia também inesquecível é a primeira ida ao estádio de futebol. Galvão e cia. que me desculpem, mas a televisão não traz 10% da emoção, não dá conta de traduzir a celebração, a magia que envolve uma ida ao estádio.

Eu era menino, tinha uns 9, 10 anos. O impressionante é que não tenho certeza da minha idade, mas lembro de detalhes do que aconteceu naquele dia. Rodrigo e Rafael tinham a mesma idade que eu e estavam entusiasmados com a possibilidade de ver o Flamengo pela primeira vez. Só falavam disso, o assunto havia virado a principal conversa na rua. Eu, como vascaíno, já estava cansado, não podia suportar a vinda do rival ao Espírito Santo. Mas, contraditoriamente, foi aí que a oportunidade se apresentou. Não era sempre que uma chance como esta surgia e eu não resisti.

O jogo não era do meu time, não era importante, não valia pontos ou título. Era um simples amistoso de pré-temporada. Mas aquele dia foi mágico, singular.

Ainda em casa, escolhi uma roupa simples. “Estádios são lugares onde as pessoas não se trajam com muitos excessos”, me diziam. Eu ainda não sabia que naquele lugar todos tinham a possibilidade de se sentirem iguais, mesmo que, no fundo, fossem extremamente diferentes. O trajeto foi tranqüilo, a confusão na entrada, perdoável. Eu estava atônito, mas, apesar disso, esperava, sem muito entusiasmo, aquilo que pra mim seria uma reedição do que via na TV.

O jogo começou. Desportiva e Flamengo, e eu, acreditem, no meio de milhares de rubro-negros. Ouvia os gritos e não conseguia fazer o mesmo. De qualquer forma, senti uma energia diferente. Nunca havia ouvido tantos xingamentos juntos. Parecia que ali as proibições de minha mãe não tinham força. Por que o juiz era tão mal-falado? Confesso que também xinguei o homem de preto e me senti muito bem. Apesar disso, ainda me via como um corpo estranho ali e torcia contra. Dissimulava, não sei se era convincente. Mas estava doido para ver um gol da Desportiva.

O jogo terminou em 2 a 1 para o time capixaba. Reconheço não lembrar a ordem exata dos gols, mas sei que vibrei, me contorci por dentro, extasiado, celebrando uma vitória que me pertencia. Um sujeito de óculos me disse: “Cara, você nem parece flamenguista.” Eu não disse nada. Apenas olhei para ele e tentei me fazer de ofendido. Naquele momento, em meio ao sentimento crescente de frustração que me rodeava, vi em que é baseada a rivalidade. Era muito bom ver o maior rival perder, ainda mais no meio deles.

Nunca esqueci daquele dia. Foi tão marcante quanto meu primeiro beijo, ainda inseguro, dado em uma rua escura de uma festa qualquer. Você que lê este texto, não se contente com os replays e mil ângulos da TV, com a narração “emocionada”, ou com a imagem da torcida que canta e vibra. Estas emoções à flor da pele só são vivenciadas na prática. Não se engane vá aos estádios, depois você me conta como foi.

11 comentário(s):

Às 18/9/05 23:12, Blogger thiagoleal; disse:

bom... minha primeira vez num estádio foi em 93, no arrudão, em recife. e o jogo não podia ter sido melhor: brasil 6 x 0 bolívia, eliminatórias da copa do mundo de 94. vi todos os meus ídolos à época de perto - raí, taffarel, zetti, branco, muller, bebeto...

 
Às 18/9/05 23:18, Anonymous Anônimo; disse:

Meu nome ser usado desta forma eh um absurdo! Vou te processar Capixaba.

 
Às 19/9/05 12:02, Blogger Marcelo Morato; disse:

Seja bem-vindo, Capixaba.

É uma pena que seu Serra tenha caído fora. Se ele tivesse vencido o Sorocaba, iríamos ter o clássico do Montinho nas oitavas.

E, aproveitando o coro do amigo Álisson, reforço o coro: "ei, Galvão, vai tomar no cu".

 
Às 19/9/05 16:38, Blogger Marcelo Morato; disse:

Desculpem o excesso de coro no meu comentário acima... hehehe!

Bem, já que a moda agora é contar como foi a primeira vez, a minha foi num Cruzeiro e Flamengo e eu meio que estava torcendo para quem ganhasse. O goleiro do Flamengo ainda era o Gilmar Rinaldi e o craque do time celeste era o Mário Tilico. Lembro que ficou 1 a 1 e nada mais além disso.

 
Às 20/9/05 11:27, Anonymous Anônimo; disse:

Muito bom Capixaba...mas seu time não é o Césio?

E por falar na "primeira vez", faço minhas as palavras da cantora Kátia: "já faz tanto tempo que nem sei".
Acho que foi na década de sessenta...em algum massacre do esquadrão estrelado. Época de Raul, Dirceu, Tostão e Natal. Tempos em que fazíamos (meu pai e eu) parte da minoria futebolística de BH.

 
Às 20/9/05 18:11, Anonymous Anônimo; disse:

Meu primeiro jogo, que eu me lembre, foi um atlético e cruzeiro..
Ainda muito pequeno, meu pai e meus tios levaram a mininada toda pra ver um massacre em cima da raposa..
Num sei quanto foi, num sei quando foi... Mas lembro da arquibancada não muito cheia, com espaço para correr e brincar...
Eita dia bom...

 
Às 20/9/05 22:33, Anonymous Anônimo; disse:

Enderson,
A pergunta que não quer calar:
quem é essa cantora Kátia ?

 
Às 22/9/05 12:31, Anonymous Anônimo; disse:

Faz muito tempo mesmo. Hoje o tradicional estádio Engenheiro Araripe foi transformado em campos society para peladeiros de fim de semana. É ... A Desportiva, que havia se tornado o primeiro clube-empresa do futebol capixaba, encerrou as atividades do futebol profissional. Em casa só me resta um álbum de figurinhas empoeirado. Vejo a locomotiva grená entre tantos mascotes ilustres e lembro que a Desportiva já este na primeira divisão do Brasileirão.

 
Às 25/9/05 01:08, Anonymous Anônimo; disse:

fala ae Tiago....
muito loco esse dia...a gente realmente nunca esquece...principalmente quandu, na sua primeira vez, o seu time perde...rs
de qualquer forma foi muito bom...ainda me lembro dos gritos do meu pai: "UH TERERÊ...UH TERERÊ".

ABRAÇÃO...

 
Às 25/9/05 13:45, Anonymous Anônimo; disse:

Vc me esqueceu seu mané!
Eu também tava nesse dia com os meus cinco anos de idade. Nem sei como não pisaram em cima de mim.
Um abraço
t+

 
Às 25/9/05 21:40, Anonymous Anônimo; disse:

É parece que o Montinho Artilheiro está fazendo sucesso também no Espiríto Santo.
Quanto a você Iafet, agora eu lenbrei.
Sujou até a fralda de tanta emoção naquele dia né ? hahahaha

 

Postar um comentário

<< Home