Meus dias de atleta
O futebol pode ser um esporte cruel. Meu amor pela bola foi precoce e nunca foi correspondido. Nas peladas, só me salvava de ser o último escolhido por ser alto e jogar razoavelmente bem no gol.Quando tinha por volta de 12 anos, surgiu a idéia no bairro de montar um time para disputar o campeonato ipatinguense da categoria. O nome escolhido refletia o espírito da equipe e nos fazia entrar em campo já em desvantagem: Improviso FC. Para participar da equipe, fiz uma exigência: não queria ser o responsável por guardar a meta.
Como tínhamos um ótimo goleiro, minha exigência foi prontamente atendida e acabei lateral-esquerdo. Daqueles à moda antiga, com preocupações exclusivamente defensivas. Sem muita intimidade com a bola, subir ao ataque seria desnecessário e ser responsável pelo miolo da zaga seria arriscado. Aquela faixa do gramado era a ideal para mim.
Por ser esforçado e impor respeito, sempre fui titular. Era até um pouco botineiro. Porém, costumava ser sacado quando as coisas ficavam feias e, no início, isso acontecia com bastante freqüência. Na primeira partida, sofremos uma goleada de dois dígitos. Com o tempo, começamos a empatar e até ganhamos um ou outro jogo. Mas o ápice da curta existência do Improviso, que durou somente uma temporada, foi o jogo contra a Aciaria, um dos clubes mais tradicionais da cidade, por onde já passaram jogadores como Fred e Mancini – que, a julgar pela faixa etária, poderiam estar em campo naquela tarde – e até mesmo nossa companheira Lívia Bergo – que atuava pelo time feminino, antes que perguntem.
Levamos um gol bem no início e, a partir daí, equilibramos a partida. Lá pelos 30 minutos do segundo tempo, com o placar ainda em 1 a 0, tivemos um pênalti a nosso favor. Como já estávamos na fase do desespero, eu já havia dado lugar a mais um atacante e vi, do banco, a bola ir pelos ares. No fim das contas, a derrota por um gol foi o grande momento daquele time que, por ser apenas um improvisado time de bairro, fez uma campanha razoável e terminou em antepenúltimo lugar.
Logo após o fim do campeonato, fui recrutado para jogar basquete na Usipa, outro grande clube da cidade, onde descobri que levava mais jeito com a bola nas mãos. Joguei dois maravilhosos anos e atuava como ala nas equipes de 83, de 82 e de 81. Só sentava no banco quando estava extremamente cansado ou com a partida já ganha. Jogamos em várias cidades de Minas e, ao contrário do Improviso, a Usipa ganhava muito mais que perdia.
Assim, passei a amar o basquete até mais que o futebol. Colecionava cards, comprava revistas, camisetas. Nunca havia sonhado em ser jogador de futebol quando pequeno, mas, naqueles meses, cogitei ser perfeitamente possível me tornar um jogador da NBA Apesar de não ser obrigado, treinava com as três equipes, jogando uma média de três horas diárias. Mas não era o melhor do time. Havia o Paulo, pivozão de mais de 2 metros, alguns meses mais jovem e que, segundo consta, jogou no juvenil do Flamengo e hoje atua por uma universidade norte-americana.
No fim de 96, recebi uma homenagem de melhor jogador do clube, já que o Paulo era quase honrs-concours. Após as férias, decidi parar de jogar, algo de que não me arrependo. Atualmente, o basquete e o futebol ocupam lugares rigorosamente iguais no meu coração. E tenho duas certezas: encerrei minha carreira no auge e minha paixão pela bola laranja foi plenamente correspondida.






17 comentário(s):
Snif..Snif...Snif...
Sinceramente fiquei emocionado e me identifiquei com seu texto.
Falando sério, a mesma relação que você teve com o basquete eu tive com o vôlei. Sempre adorei futebol, mas sempre fui melhor jogador de vôlei...e dos bons. No futebol, fui um razoável goleiro de "futebol de salão".
Gostei de lembrar disso.
Agora, vamos lá...para o lado cruel da situação:
Você não confessou que só jogava no Improviso porque era dono da única bola do time.
Fred não estava em campo na memorável partida, porque o Aciaria já era campeão antecipado com 5 rodadas de antecedência.
Mancini já havia entrado na justiça contra o Aciaria para obter a liberação de seus direitos econômicos e federativos...estava de olho no Galo.
Abração.
Eu queria ter me identificado com essa história. Mas ela foi muito vitoriosa pra mim.
Sempre gostei de futebol mas sempre joguei mal. Comecei a jogar basquete e era no máximo um bom reserva do time da escola. Encerrei minha carreira.
No meu pós-carreira jogo futebol bem melhor do que antes, mas ainda sou ruim.
Ô tristeza.
Sempre fui e sou um craque... Uma pena, não tive tantas chances em outras posições... Me destaquei sempre "onde a grama não cresce mais"... Sempre fui um grande goleiro... Tanto no campo, futsal e em outro esporte que é a minha paixão - o handebol... Voltando a falta de chances, todos sabem que sou como dadá "esqueci de aprender a jogar futebol pra aprender a fazer gols"... Um grande goleador, mas por preconceito da sociedade tive poucas chances... Mas ainda continuo levando a fama de aranha-negra... Hehehehe... desculpem pessoal, sou mto humilde...
Marcelo...
cuidado q vou vender sua história para um grande estúdio americano...
emocionante... emocionante..
só falta uma namoradinha (livia) e um cachorro que vai jogar mto futebol e basquete...
Tive uma idéia originalíssima de adaptação para o enredo do filme:
Morato era um garoto de 11 anos que adorava futebol. Ele tenta jogar no time da cidade e não consegue se firmar.
Até que um dia, sentado triste no meio-fio, vê uma bola de basquete (coisa que nunca tinha visto na vida) e começa a brincar com ela, então descobre que tem talento.
Ingressa no time da cidade como gandula e depois ganha uma posição no time. Rapidamente se torna o craque e o capitão da equipe, o time começa a ganhar todos os jogos.
O time vai participar do campeonato nacional e destrói os adversários.
Mas na final há um adversário muito melhor que eles, eles começam perdendo, mas Morato diz umas frases de efeito e o time vence ao som de uma música emocionante.
Morato volta pra casa e liga a TV, está passando um jogo do Ipatinga FC, a final do campeonato brasileiro. Morato sorri.
FIM
Putz, escrevi pra caramba.
ahhhhhh...
falta o romantismo...
e a namorada que dá força pra ele nos momentos difícies desde dos 11 anos..
e o cachorro atleta???
sem isso nunca vai ser um sucesso...
Opa! Como assim não tem namorada? Não só tem como jogava pelo time do adversário. Isso é muito Hollywood.
Já cachorro, este não tem mesmo. Eu tinha até um pequinês quando criança, mas ele nunca tocou numa bola, com menhuma de suas quatro patinhas.
Em compensação, tenho um hamster que pratica alpinismo. Não serve?
Giovanni, eu me tornei um gandula de basquete? Legal!
E sobre a final com o Ipatinga, esta pode ser a da Copa do Brasil, não pode?
Marcelo...Abre o jogo:
E aquele cachorrinho de pelúcia que embalava seus sonos...e sonhos?
É claro que não pus tudo que vai ter no filme, só a linha principal.
Tem a namoradinha que ele conhece desde que era um bebê que o ajuda a superar o complexo de inferioridade decorrente da dispensa do time de futebol. Ela é meio secundária.
O cachorro eu ignorei porque para ele fazer sucesso ele teria que ser o protagonista. Aí já é sacanagem com o Morato.
Morato, só pra deixar claro: os fatos reais não tem muita importância aqui. O filme será só BASEADO neles, a gente muda umas coisas pra não correr riscos. Nunca se sabe como a audiência interpretará a mensagem, então recorremos a lugares-comuns.
Parem de zoar a profissão fictícia de gandula de basquete!
uahuAuhUHAUHAuhUHauh!
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