Fica para 2010
Incrivelmente, não temos ninguém para jogar a culpa: jogamos mal e perdemos. Nenhum craque teve uma ziguizira antes do jogo, como em 98. Não fomos injustiçados pelos homens, como em 78, nem pelos deuses, a exemplo de 82. Ao contrário do que disse há um tempo atrás, essa Copa não se pareceu com nenhuma outra. Pela primeira vez em vários anos tivemos que falar, de cara lavada, que fomos inferiores.Alguns vão querer culpar Roberto Carlos, por se preocupar mais com sua meia do que com Henry. Procede em parte. Ao lateral pode ser creditada boa parte da culpa pelo gol, mas isso não explica a derrota. Como um time favorito ao título obriga o goleiro adversário a tocar na bola somente uma vez, ainda assim nos minutos finais da partida? Quiseram dizer que o Brasil não entrou em campo hoje. Mais uma vez, queremos nos enganar, achar que seremos sempre melhores apenas por jogar de verde e amarelo. Até nosso capitão acreditava que poderíamos vencer a qualquer momento! Que bobagem! O verdadeiro Brasil jogou hoje, sim. Bem pouquinho, é verdade. “C'est la vie”, poderia nos dizer Henry para nos consolar.
Desde o início, a seleção foi criticada pela maioria, com toda a razão: com os jogadores que tinha, o desempenho sempre foi muito aquém do esperado. Mesmo assim, eu acreditava que o time melhoraria quando a ocasião exigisse e que só Alemanha, Argentina e Itália seriam capazes de fazer tombar o pentacampeão. Com o emparelhamento dos mata-mata, acreditei que teríamos um caminho relativamente fácil até a final, quando - aí sim - nossa capacidade seria colocada à prova. O filme acabou antes do esperado, mas o final não foi propriamente uma surpresa. Vejo que também fui um pouco contaminado pela soberba que atingiu muitos brasileiros.
Numa Copa, não se pode apenas ganhar ou perder. Pode-se ganhar, perder, perder, perder... Das 32 seleções, apenas uma leva o título e qualquer iniciado em matemática sabe que as chances de perder de qualquer seleção, incluindo o Brasil, são muito maiores do que as de levantar o caneco. Mas os 66% de aproveitamento das três últimas Copas nos deixaram muito mal-acostumados.
Uma vaga nas quartas deixaria torcedores de muitos países satisfeitos. Mas os brasileiros sempre tiveram mesa muito mais farta. O que nos deixou decepcionados hoje não foi o que aconteceu. Foi o que poderia ter acontecido.






8 comentário(s):
Como lembrou a Livinha, a teoria da pirâmide foi para o ralo...
Morato,
Você falou tudo.
Estou viajando pela Europa (vou embora hoje) e todo mundo tinha certeza de que o Brasil seria hexa, mesmo com o futebol apresentado. Aqui em Londres vi os ingleses chorando e uns brasileiros também. E Picadilly Circus parecia um pedaço da França.
Até 2010.
Depois de Gana,
o Brasil também não engana!
Pois é... mesmo assim acreditávamos. Mas não apenas a ilusão se desfez, Marcelo, como também a crença de Roberto DaMatta de que os brasileiros sabem que "a bola corre mais que os homens". Se esta seleção sabia, acabou esquecendo. Aliás, vale a dica: o famoso antropólogo publicou suas crônicas feitas durante as copas de 94 e 98 num livro muito saboroso, com este nome: "a bola corre mais que os homens". Ali está uma crônica de 24 de junho de 98 publicada no Jornal da Tarde chamada "Sete modos de transar a derrota". O conselho n.º 2 é "voltar-se para a política". Será que é uma boa?...
Aproveito para dar os parabéns à turma pelo blog que acabei de conhecer.
Cafu, ao fim do jogo, disse que a seleção não tinha um escape, estava sem saída, que os franceses haviam acabado com todas as jogadas que os brasileiros podiam fazer.
Parreira, ao fim do jogo, disse que não estava preparado para uma derrota.
Então é assim, Parreira acha que é só colocar o time em campo e torcer calado que ganha. Como não ganha? É o Brasil, oras, chega automaticamente na final!
Zinedine Zidane destruiu! França!
Assumpção e Associados, missão cumprida (embora curta... fazê-la). Votei, e encomendei a vitória do blog à Mãe Dinah.
O Montinho é chic e posudo, como desagrado só certas sombras azuis celestes, que nem a França.
Quem poderia dizer que o Brasil fracassaria de modo tão retumbante? Quem? Qualquer amante do ludopédio com um mínimo de vivência e discernimento. Até um velho americano, que nem eu (que nem freqüento o Samarkan...), andou se dando a tais direitos.
Um apelo ao blog: estou obcecado pela defesa de uma tese pouco acadêmica. Brigar para que as Copas do Mundo só sejam jogadas por equipes nacionais que tenham, por exemplo, 50% de jogadores militando nos campeonatos locais no último ano, coisa assim. Essa bobagem de origem está perdendo o sentido nestes tempos onde os empresários carregam as jovens promessas para os dólares a partir dos 14 ou 15 anos, e amparam as famílias... acabarão até distribuindo bolsas famílias, que nem um tal candidato que um dia amei.
Ou acontece algo assim (é só uma idéia), ou não combateremos a tediosa mediocridade dos campeonatos dos países exportadores de craques, como o nosso, e seremos condenados a escravos televisivos do futebol nas poucas potências colonizadoras. E teremos que, uma vez mais, sofrer com a arrogância e a soberba de moleques que pouco estão se cagando (diria, defecando)para o que é exterior a seus mundinhos de fantasia, riqueza, e muita publicidade na moleira desses pobres babacas, nós, que sonhamos com seus feitos... enquanto isso, como ontem, suas namoradinhas esperam no hotel, e jantam com champanhotas.
Abaixo Ricardo Teixeira, abaixo Parreira, descanso para o Zagallo, pois, afinal, VOLTAR PRA CASA se escreve com 13 letras. Abração e boa sorte para o blog. Paulinho (o do buraco).
Bom saber que não sou o único que perdi a ilusão. O duro é saber que, daqui a quatro anos, meu coração mole vai falar mais alto novamente e vou torcer pelo sucesso da seleção novamente, mesmo sabendo que ela não merece.
O comentário de Bruno Caldeira, embora suscinto, mostra bem o que todos nós estamos sentindo! :)
Obrigado a todos que compartilharam conosco suas impressões sobre um momento difícil. Para nós, não para os jogadores, obviamente.
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