domingo, agosto 06, 2006

São Januário, 30/12/2000

Depois de mais de oito horas de viagem, eu havia chegado ao Rio. Com a promessa de conhecer as praias cariocas e a esperança de ver o tetra campeonato brasileiro do Vasco, o cansaço e a dor nas pernas passava praticamente despercebido. Ainda era cedo, mas nas imediações de São Januário a massa já estava aglomerada.

Na entrada destinada aos veículos autorizados alguns carros se aproximavam. Eu observava atento, enquanto algumas pessoas próximas narravam a cena. “Ah. O Eurico chegou. Olha lá”. O rapaz, que aparentava ter uns 25 anos, dizia isso com um sorriso no rosto, enquanto Eurico, com cara de poucos amigos dava um “esporro” em um policial militar. Tudo normal. O termômetro marcava inacreditáveis 36 graus e ainda tive tempo para ver o repórter João Pedro Paes Leme entrando ao vivo no Globo Esporte e lutando para conter os gritos da torcida que gritava: “Vice é o car****”. Um desabafo sincero...

O guia tinha chegado e com ele os ingressos. Peguei os bilhetes e junto com meu amigo Rodrigo, fiz o caminho de volta ao ônibus. Apesar do atraso do guia, eu ainda contava com a promessa da visita a Copacabana e da parada para um almoço em um lugar decente. É... o ônibus não estava lá. Mudança de planos, sem nenhum aviso, e lá se foi o motorista levando as promessas, nossas bolsas, carteiras e dinheiro. O pior de tudo foi constatar que as faixas de Campeão Brasileiro de 2000 tinham custado nossas últimas moedas. E ainda nem eram 11 horas.

A queda!

O tempo passou e, em meio a muita confusão, entramos no Estádio. Fizemos de tudo para ficar no “coração” da Força Jovem e ajudamos a carregar os tambores. Apesar do calor eu estava eufórico e ainda tive tempo para conversar com uma carioca, ruiva, que estava na arquibancada.

Calor, sede, fome e a estranha sensação de que alguém devia fechar as portas daquele estádio. O espaço estava muito pequeno, mínimo, cada vez menor. Quando o jogo começou, eu mal conseguia mexer meus braços, levantá-los era quase impossível. Mesmo os integrantes da bateria tinham dificuldade para cumprir suas funções. A partida tinha começado um tanto mal, em campo e fora dele. Dentro: o Vasco não se encontrava e tinha dificuldades com o São Caetano. Fora: eu estava morrendo de sede, não suportava aquele calor e estava sozinho – Rodrigo tinha sumido.

Romário sentiu dor na coxa e pediu pra sair. De repente uma discussão, alguns empurrões e muita correria. Tudo isso bem perto, a menos de 10 metros, e apenas três lances de arquibancada abaixo de mim. Um pequeno clarão se formou na minha frente e o resultado foi um efeito dominó impressionante. Naquele momento, as leis da física pareciam fazer sentido. Muitos torcedores foram pressionados contra o alambrado, e assim ele cedeu.

O calor se somou a um cheiro de sangue que deixava a atmosfera insuportável. Vi crianças machucadas; vi também, com o joelho esfolado, a moça ruiva com a qual tinha conversado antes da partida; observei alguns jogadores que tentavam ajudar os feridos. Vi Eurico Miranda em pelo menos dois momentos distintos: no primeiro tentava coordenar alguma ajuda aos feridos, no segundo parecia querer expulsá-los de campo para que a partida pudesse continuar.

O jogo foi cancelado. No fim, encontrei Rodrigo e fomos até o ônibus. A viagem de volta foi silenciosa. Quando cheguei em casa tive ao menos uma certeza: não teria autorização materna para assistir a partida, remarcada para o Maracanã. Restou colocar a faixa de campeão no peito e assistir ao tetra pela TV.

3 comentário(s):

Às 7/8/06 15:26, Anonymous Anônimo; disse:

apesar do lado negro desse trocadilho, vale ressaltar: se o alambrado não caísse, quem ia cair era a casa do vasco.

como o capixaba falou, o vasco estava acuado pelo são caetano. além disso, romário acabara de sair. adãozinho e adhemar estavam inspirados.

com o adiamento da final, tudo foi diferente, e o vascão foi tetra.

agora a dúvida que não quer calar: capixaba,
pegou ou não pegou a ruiva? hahaha

 
Às 7/8/06 15:51, Blogger Pedro P; disse:

A-dão-zinho!

 
Às 8/8/06 10:32, Anonymous Anônimo; disse:

hehehe

nada de ruiva breiller...

o máximo que consegui pegar aquele dia foi o ônibus de volta pra casa...

 

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